A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dramaturgia nossa de cada dia.

Por que?
Se a lista, que foi elaborada em quinze minutos, já está no item sessenta e cinco, eu me pergunto "Por que?".
Por que você? Por que agora? Por que comigo? Por que...
Fugimos do roteiro, admita.

Pro remédio fazer efeito, fecho os olhos e enxergo. Você tem um quê de algo que eu, definitivamente, não precisava precisar.

Mas agora eu preciso.

Mas não preciso mais de um "porque", pois tendo esse "quê" indefinido e necessário, já completo o cenário, e as peças dessa peça se encaixam.

E o ato final continua por trás das cortinas vermelhas. Os aplausos cessam, o público sai e leva consigo o murmurinho e ficamos nós.
A sós.
Até o apoio ir embora.
Até o teatro fechar.
Até que as luzes se apaguem.

E aí protagonizamos um mundo só nosso.
Atrás das cortinas.
Só a gente sabe.

A sós, só a gente sabe.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Vírgula.

Dia desses virei a noite vendo uma comédia romântica tirando o esmalte das unhas com os dentes e chorando ao pensar a respeito de meu futuro frustrante onde trabalharei feito uma condenada para ganhar no máximo uns dez mil mensais e não ter tempo ou paciência de gastar essa merreca.
Felicidade é isso?
Deu até falta de ar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Desabafo de um homem que antigamente era "das antigas".

Lembro-me perfeitamente de um dos dias mais frustrantes da minha vida.
Após muito tempo, fui a uma locadora para alugar um filme - que agora me foge à memória. Chegando lá, meu mundo caiu.
Perguntei à atendente e ela disse que tinha, sim, o filme que eu queria, mas só em DVD, não em VHS. Tudo bem, as coisas mudam. Perguntei então onde era a seção de VHS, para que pudesse escolher alguma outra película e para que minha ida não tivesse sido em vão.
A moça, muito solícita, me acompanhou até lá.
Não havia nem 100 filmes naquela prateleira. O resto da locadora era composto apenas por DVDs. 
Ninguém mais queria saber daquela fita grossa, enorme, que se tem que rebobinar antes de devolver para a locadora.
A moda agora era aquela rosquinha fina, miúda, que não passava segurança alguma. 
Comentei acerca com meu filho e ele disse que era muito mais prático e que me daria um aparelho de DVD no natal. Sinceramente, ignorei-o. Poderia passar a vida vendo apenas meus VHS antigos, sem precisar dos lançamentos que cabem naquela coisa minúscula metida a besta.

Isso foi em 2006, se não me engano. 
Pois é, passaram-se 7 anos desde então... Hoje rio. Que bobagem a minha!
Logo eu, que não troco a alta definição do meu Blue-ray por nada.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O que eu odeio

Eu adoro te ver de cima. Quer dizer, adoro te ver do ponto de vista de cima. Sei lá, eu simplesmente gosto.
Seus cílios ficam mais grossos e curvados, seu nariz parece mais fino e quando olha pra mim, seus olhos parecem duas enormes jabuticabas.
Eu adoro jabuticabas.

Eu adoro te ver de baixo. Seus lábios parecem menores e um pouco mais grossos, suas narinas mais fechadas, seu queixo menor e mais redondinho e seus cílios ficam mais longos, parecem um pincel.
Eu adoro pintar.

Eu adoro te ver de costas. Gosto de ver seus cabelos balançando enquanto você anda e gosto de acompanhar o crescimento deles (aliás, está na hora de dar uma aparada), gosto de ver suas lindas pernas em movimento, seu bumbum redondo, seus braços balançando e seu quadril mexendo enquanto você anda  como quem não liga pra nada.
Eu adoro o desleixe.

Eu detesto te ver de frente. Seus cílios são um pouco separados e curvados até demais, seu nariz é um pouco grande, seus olhos são redondos demais, seus lábios são finos e longos, sei lá, e seu queixo é um pouco grande.
Mas aí eu lembro do quanto eu adoro jabuticabas, pintura e até o teu desleixe. E então o teu desleixe se torna meu, e nada mais importa.


É tudo questão de relação. Da relação.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Perspectiva

Outro dia eu me peguei pensando em você. Nos planos que fazíamos, nas promessas que jamais cumpriremos por conta do destino e nas promessas que fizemos com a consciência de que nunca se cumpririam.
É até engraçado dizer isso. Ri de mim mesma agora, confesso. Mas é a verdade. Nos iludíamos, sim. E sabíamos disso, não eramos ingênuos a esse ponto... Muito pelo contrário: Para sustentar uma ilusão, criávamos outra, e assim ia, até que foi.
Foi embora, não volta mais.
As ilusões ficam como lembranças e até como piadas, por mais triste que isso possa parecer.
É triste agora, mas antes era bom... E talvez ainda fosse... Quem sabe?

Todos sabem que não, a verdade é essa.


Tentei, mas as minhas ilusões não mais funcionam com você. Acho que foi, mesmo.

Foi...


Será?

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sinestesia.

Disse um adeus calado, enxugou as lágrimas que nem saíram do rosto, virou-se, bateu a porta e, ainda de costas, apoiou-se nela.
Deslizou até o chão com os olhos cheios d'água e ali ficou por um bom tempo, sentindo o cheiro cinza do inverno interior.
Não fazia movimentos bruscos, não mudava a expressão e lágrima alguma caia enquanto pensava nas palavras negras e frias que poderia ter dito. Apenas fechava os olhos com força para ver se a agonia passava e alguma lágrima escorria por seu rosto.
Nada.

Após certo tempo sentada apoiada na porta, levantou-se. A vida tinha de seguir.
A fome bateu.
E foi com o cheiro quente do café que lembrou-se do ocorrido, e só então deu-se conta de que não estava triste. Estava com raiva.
Não ficou decepcionada, magoada, desesperada ou qualquer coisa do tipo. Apenas sentiu raiva.



Tem coisa mais triste?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O motivo e a razão

- Estou triste.
- Triste como?
- Não sei.
- Triste por que?
- Não sei.
- E como sabe que está triste?
- Porque estou.
- Não entendi.
- É como seu pegasse um grande amontoado de areia com as duas mãos e conseguisse segurar perfeitamente, até que, repentinamente, os grãos começam a escorrer por entre os dedos, até que tudo se vai e apenas posso lamentar, porque jamais conseguiria pegar todos - todos - aqueles grãos de novo.
- Entendo... Mas se você parar para pensar, sempre vai sobrar pelo menos um ou dois ou cinco ou dez grãos em suas mãos. A areia é fina. A menos que você a retire, ela não sai completamente.

- Você tem razão!



- Não, você é que tem emoção demais.