A falta que fazes nas noites frias só não se classifica como a coisa mais dolorosa do mundo porque a manhã vem e consegue ser ainda mais impiedosa.
Durante a noite, desejo-te ansiosa e com ardor.
Anseio pelo teu cheiro, teu toque e tua língua. Todo o meu corpo grita e arde implorando pela tua boca e pelo calafrio que acompanha seu toque em minha pele. A nuca se arrepia ao pensar em ti e imaginar a tua voz bem próxima ao meu ouvido dizendo loucuras entre uma mordiscada e outra. Os olhos se fecham e o pescoço se alonga enquanto a minha mão percorre o corpo com firmeza, como se fossem as tuas. Massageio-me gentilmente, mas desejando na verdade que me maltratasse com tua mão estalando em minha pele, apertando o meu seio, com teus puxões de cabelo e com as tuas mordidas acentuadas nos lábios. Delicio-me pensando nos teus movimento impetuosos e na tua demasiada fome, e desejo mais que tudo poder saciar-te e até mesmo dar-te doses exageradas do meu querer tão descomunal. Desejo-te a cada segundo, e quando desejo não desejar-te, desejo-te dois segundos mais. Viro-me contra o travesseiro na desilusão de uma noite a mais sem ti e durmo, fadada a ver-te em meus sonhos e acordar injustamente deparando-me com a solidão.
Desperto com essa tão constante companhia e é com ela que desejo-te mais.
Ao banhar-me, ao me arrumar e ao tomar café.
Ao ver teu retrato, ler tuas palavras e mais ainda ao ouvi-las.
Ao piscar e ao respirar.
Ao andar e ao falar.
Ao parar e ao tentar seguir.
Ao desistir e ao lembrar que já não sei como viver sem ter você e te querer.
A culpada
domingo, 1 de junho de 2014
Ela nem é tão bela assim.
Anda meio sem jeito, com a roupa meio torta e não tem modos pra sentar.
A boca sempre está ocupada com um copo, um cigarro, o mau hálito matutino ou falando com sua voz enjoada.
Tem o sorriso pouco sincero e a pele cada vez com menos cor. Os olhos brilham cada vez menos e os cabelos... Destes eu não reclamo.
Suas ambições diminuem a cada dia, e sonha menos a cada noite, e quando sonha, acorda se debatento e lutando contra ele.
Coitada.
Nem é tão bela assim.
E por que eu não consigo resistir?
Coitado de mim!
quarta-feira, 28 de maio de 2014
- Olha, olha aqui o Fernandinho brincando com aquela amiguinha dele, a Dora, no quintal daquela casa de praia... Todos sujos, olha só.
- É mesmo! Por onde anda a Dora, hein? Nunca mais ouvi falar!
- Ah, menina, não sei. E ela era tão
Amiga do Fernando... Jurava que eles iam namorar!
- Todo mundo, né?! Eles não se desgrudavam, e agora, veja você, nem se veem mais.
- É, minha filha, cresceram! Cada um fazendo uma faculdade diferente, morando longe... Cada um foi pro seu canto.
- Doideira. E nessa foto aqui, quem é ao lado do Caio?
- Nunca vi mais gorda! Não faço ideia de quem seja essa criança.
- Mas ela está em outras fotos também, olha.
- Ah! É a filha daquela amiga da Lúcia, tá lembrada?
- To, sim! Onde foi parar essa cadeira que ela tá sentada, hein?
- Ah, também não sei que fim levou, sei que sumiu.
- Deve ter se perdido em alguma mudança.
- Provável... Ih, olha a gente nessa foto! Olha o seu cabelo, Deus me livre!
- Não ri, não! E essa sua calça nos peitos?
- Era moda, meu bem!
Depois de muitas risadas revendo aquelas fotografias e entre um gole e outro no vinho tinto seco...
- Muito bom ver essas fotos! Olha como a gente mudou!
- Graaaaaças a Deus, né? Imagina se você tivesse aquele cabelo de poodle até hoje, jamais andaria com você.
- Palhaça! Pior que é mesmo... Mas há quanto tempo não riamos assim, hein, irmã?
- É, acho que perdemos esse hábito em alguma mudança... Da vida.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
É inegável: eu não a esqueço.
Sonho com ela às vezes e constantemente chamo por seu nome.
Sinto seu cheiro antes de dormir, mas já não o reconheço nela quando passa rapidamente.
Todo dia lamento sua mudança e minha falta de evolução. Fossemos sempre iguais, ainda estaríamos juntos, e que se danem as brigas.
Nas ruas, nos bares e botequins, menosprezo todos os sorrisos. Jamais se igualarão ao dela, pois se bastam com os lábios. E os olhos, cadê?
Juro a cada pensamento amoroso que este será o último, e que então a quererei ver feliz e completando a vida de outrem.
Invejo a cada batimento cardíaco os que a cercam e os que ainda poderiam cercá-la, e incompreendo cada dia mais os que não o fazem.
Morro um pouco a cada devaneio da sonhada realidade que jamais retornará. Ressuscito quando penso que assim é melhor pra minha menina.
Mas o coração quase para quando percebo que errei.
Já não posso chamá-la de "minha".
Perdi.
E já posso chamá-la de "menina".
Perdeu-se.
domingo, 25 de maio de 2014
A ida
Você foi
Aqui fiquei
Diria que doeu
Mas na verdade só chorei.
Você foi
Não me levou
Disse não sentir saudade
E isso nem me magoou.
Você foi
Não olhou pra trás
Deixou a mala aqui
Que já tá com poeira demais.
Você foi
Dizia já não ter paciência
Mas nem se despediu
Que falta de decência!
Você foi
Que bom que não quis ficar
Porque do jeito que sou hoje
Não tenho saco pra te amar.
sábado, 24 de maio de 2014
O terceiro conceito de "aventureira".
Senti saudades dos lugares que frequentávamos, da casa dos teus amigos e dos lugares que planejamos conhecer juntos (e que hoje já nem os quero conhecer).
Senti saudade dos passeios sem rumo, do andar descompromissado e dos chinelos nos pés em qualquer ocasião.
Senti saudade do nascer do sol depois de longas noites, da tua cara de sono e da sua direção nada segura almejando chegar logo em casa.
Senti saudade do nosso banho amistoso e com um "que" de malícia, e de você penteando meus cabelos molhados logo após hidratar meticulosamente a minha pele.
Senti saudade da inconstância, da briga que acontecia e se resolvia antes de dormir e do jeito como você se rendia.
Senti saudade da aventura.
Mas me vi sorrindo despreocupada e passou.
Aventura é ser feliz assim, simplesmente, despretenciosamente, despreocupadamente.
Realmente.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Precaução
Me dói a tua fraqueza
E também o teu desespero
Mas será que é incerteza
Ou é medo do espelho?
Dizes que andas bem
E andas sorrindo por aí
Mas, meu amor,
Esqueceu-se que não sabes mentir?
Persistes em encarnar o teu papel
Falas muito
Diz pouco
É pouco juiz e todo réu.
Não se culpa pelo rumo que tomou a sua vida
Segue como se tudo fosse normal
Mas por trás da coberta ferida
Sabes que há um mal.
Adora-o e conserva-o
Como se a própria vida fosse
Então será que tua bondade,
Tão escondida, mudou-se?
Não se sabe de nada
Nem de forma nem de conteúdo
Contudo, ainda que na miséria pessoal,
Mantêm-se com tudo.
Ora, meu filho, não sabes a boa nova?
É hora de tudo largar
Aconchegue-se em meu caminho,
Mas tira o sapato antes de entrar.
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