Disse um adeus calado, enxugou as lágrimas que nem saíram do rosto, virou-se, bateu a porta e, ainda de costas, apoiou-se nela.
Deslizou até o chão com os olhos cheios d'água e ali ficou por um bom tempo, sentindo o cheiro cinza do inverno interior.
Não fazia movimentos bruscos, não mudava a expressão e lágrima alguma caia enquanto pensava nas palavras negras e frias que poderia ter dito. Apenas fechava os olhos com força para ver se a agonia passava e alguma lágrima escorria por seu rosto.
Nada.
Após certo tempo sentada apoiada na porta, levantou-se. A vida tinha de seguir.
A fome bateu.
E foi com o cheiro quente do café que lembrou-se do ocorrido, e só então deu-se conta de que não estava triste. Estava com raiva.
Não ficou decepcionada, magoada, desesperada ou qualquer coisa do tipo. Apenas sentiu raiva.
Tem coisa mais triste?
A culpada
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
O motivo e a razão
- Estou triste.
- Triste como?
- Não sei.
- Triste por que?
- Não sei.
- E como sabe que está triste?
- Porque estou.
- Não entendi.
- É como seu pegasse um grande amontoado de areia com as duas mãos e conseguisse segurar perfeitamente, até que, repentinamente, os grãos começam a escorrer por entre os dedos, até que tudo se vai e apenas posso lamentar, porque jamais conseguiria pegar todos - todos - aqueles grãos de novo.
- Entendo... Mas se você parar para pensar, sempre vai sobrar pelo menos um ou dois ou cinco ou dez grãos em suas mãos. A areia é fina. A menos que você a retire, ela não sai completamente.
- Você tem razão!
- Não, você é que tem emoção demais.
- Triste como?
- Não sei.
- Triste por que?
- Não sei.
- E como sabe que está triste?
- Porque estou.
- Não entendi.
- É como seu pegasse um grande amontoado de areia com as duas mãos e conseguisse segurar perfeitamente, até que, repentinamente, os grãos começam a escorrer por entre os dedos, até que tudo se vai e apenas posso lamentar, porque jamais conseguiria pegar todos - todos - aqueles grãos de novo.
- Entendo... Mas se você parar para pensar, sempre vai sobrar pelo menos um ou dois ou cinco ou dez grãos em suas mãos. A areia é fina. A menos que você a retire, ela não sai completamente.
- Você tem razão!
- Não, você é que tem emoção demais.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Noite de sábado
Por que a gente não aluga um filme?
Podemos comprar algumas besteiras pra comer, se quiser. E você escolhe o filme. Pode até ser desenho ou comédia romântica.
Depois, a gente pode pedir uma pizza, sei lá. E jogar algum jogo.
E então a gente se deita. Começamos com um beijo. Uns, na verdade. Tudo bem, muitos, por mim. E depois... Bem, depois você sabe...
E depois do depois, podemos pensar no depois. Nos filhos que poderemos ter, nos possíveis nomes deles. Falo no plural porque quero pelo menos três! Mas se não quiser, tudo bem, poderemos ter só dois, ou um... Mas que sejam nossos! E se for menino, vai ter que ter o nome do meu avô! A não ser que não queira, claro.
E então discutiremos em que lugar compraremos a nossa casa de praia que iremos aos feriados e nas nossas férias... Você gosta de Angra dos Reis, não é? Pode ser lá, eu gosto também!
E enfim a gente dorme e eu te acordo com muitos beijos e te achando linda, mesmo com o rosto todo amassado.
E aí, topa?
- Mas podemos fazer um fondue?
Podemos comprar algumas besteiras pra comer, se quiser. E você escolhe o filme. Pode até ser desenho ou comédia romântica.
Depois, a gente pode pedir uma pizza, sei lá. E jogar algum jogo.
E então a gente se deita. Começamos com um beijo. Uns, na verdade. Tudo bem, muitos, por mim. E depois... Bem, depois você sabe...
E depois do depois, podemos pensar no depois. Nos filhos que poderemos ter, nos possíveis nomes deles. Falo no plural porque quero pelo menos três! Mas se não quiser, tudo bem, poderemos ter só dois, ou um... Mas que sejam nossos! E se for menino, vai ter que ter o nome do meu avô! A não ser que não queira, claro.
E então discutiremos em que lugar compraremos a nossa casa de praia que iremos aos feriados e nas nossas férias... Você gosta de Angra dos Reis, não é? Pode ser lá, eu gosto também!
E enfim a gente dorme e eu te acordo com muitos beijos e te achando linda, mesmo com o rosto todo amassado.
E aí, topa?
- Mas podemos fazer um fondue?
sábado, 17 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Ah, o amor...
O problema do amor é o clichê.
Não no sentido de ideias clichês, mas no sentido de o sentimento, por si só, ser clichê.
Quem quer ler algo de um escritor clichê?
Todo mundo, na verdade. O clichê agrada porque a maioria se identifica. E quem não se identifica, sonha em um dia identificar-se.
Engraçado...
Curioso, no mínimo.
Em tempos em que se busca tanto a diferenciação, todos sentem - ou desejam sentir - a mesma coisa.
"Mas de forma diferente."
De que forma? Existe outra?
O que andam ensinando por aí sobre o amor? Só se ama de um jeito!
Eu só amo de um jeito.
Amo do jeito que se deve ser.
- E há jeito certo?
A verdade é que ninguém sabe, por isso há tanto amor virando desamor.
Amem mais, pelo amor de Deus!
Não no sentido de ideias clichês, mas no sentido de o sentimento, por si só, ser clichê.
Quem quer ler algo de um escritor clichê?
Todo mundo, na verdade. O clichê agrada porque a maioria se identifica. E quem não se identifica, sonha em um dia identificar-se.
Engraçado...
Curioso, no mínimo.
Em tempos em que se busca tanto a diferenciação, todos sentem - ou desejam sentir - a mesma coisa.
"Mas de forma diferente."
De que forma? Existe outra?
O que andam ensinando por aí sobre o amor? Só se ama de um jeito!
Eu só amo de um jeito.
Amo do jeito que se deve ser.
- E há jeito certo?
A verdade é que ninguém sabe, por isso há tanto amor virando desamor.
Amem mais, pelo amor de Deus!
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
A despedida
Vai, pequena, não faz assim. Vejo-te desse jeito e não consigo nem esboçar um falso sorriso no canto da boca. Muito pelo contrário... As lágrimas caem sem que os olhos se fechem. Por que você faz isso comigo?
E para de me olhar desse jeito!
Por Deus, para, pequena!
Sinto muito, ma terei de faze-la parar.
Você me perdoa?
Me responde, por favor. Eu já não tenho forças para continuar aqui. A cada lágrima que se vai, vai também grande parte de mim.
Responde, anda... Em qualquer outra situação, você estaria sorrindo, ou chorando, ou falando pelos cotovelos, ou os três, como no dia que tive que operar hérnia às pressas, lembra?
Tudo bem, não vai responder, já entendi... Com o tempo eu vou aceitando...
Mas suplico-te para que me desculpe por agora.
E jogou a última rosa cor-de-rosa, a favorita da pequena, enquanto sinalizava que podiam começar a jogar a terra.
- Adeus.
E para de me olhar desse jeito!
Por Deus, para, pequena!
Sinto muito, ma terei de faze-la parar.
Você me perdoa?
Me responde, por favor. Eu já não tenho forças para continuar aqui. A cada lágrima que se vai, vai também grande parte de mim.
Responde, anda... Em qualquer outra situação, você estaria sorrindo, ou chorando, ou falando pelos cotovelos, ou os três, como no dia que tive que operar hérnia às pressas, lembra?
Tudo bem, não vai responder, já entendi... Com o tempo eu vou aceitando...
Mas suplico-te para que me desculpe por agora.
E jogou a última rosa cor-de-rosa, a favorita da pequena, enquanto sinalizava que podiam começar a jogar a terra.
- Adeus.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Casa nova
O medo antes de render-me não era o da entrega, era o da perda. Perda da liberdade, perda dos sentidos, perda da imaginação, perda até do coração.
Ao dar-te o meu coração, perco-o parcialmente (em tese, totalmente, mas como ainda não deixei-me levar pelo sentimentalismo, assumo que é parcial). E, dando-o, perco-o. Mas, guardando para mim, é que realmente o abandono.
Abandono no vazio que era isso aqui antes de ti. Você pegou a sua mobília antiga, com a tinta começando a descascar, e colocou em meu quarto novo que ecoava solidão de tanto espaço que tinha.
O espaço continua grande, mas sei como quero decorá-lo.
Amor, quando chega o caminhão da mudança?
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