A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

terça-feira, 28 de junho de 2016

De fato, a falta de perdão nos corrói.

É inevitável não praguejar contra o mundo ou contra mim mesmo quando as lembranças me acometem. Lembro do meu choro, tão sincero e aparentemente incessante.
Mas cessou.

Agora são as náuseas que me atormentam. Dificilmente as lembranças me fazem chorar, mas a cabeça e o peito ainda doem, e o estômago logo se revira.

Espero um dia perdoá-los.

Mas para isso tem de haver arrependimento.


Melhor mesmo marcar um médico.
Um homem nessa idade não pode deixar pra lá essas coisas do coração. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Às vezes queria perder a facilidade que penso ter de elucidar com palavras as profundidades sentimentais nas quais me inundo.

É que na escrita o sofrimento faz tanto mais sentido que quase me convence que vale a dor. 

E sinto-a.

E quando leio aquela dor eternizada em prosa, nem sempre sorrio satisfeita com a obra que criara: quisera eu não sentir aquilo (ou não passar a sentir).

Sofrer no verbo deixa tudo maior.

Mas às vezes diminui.

E deixa de marcar o rosto com as lágrimas pra passa a marcar com tinta o papel.



Agora, por exemplo, até sorri. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Não nascera para o amor, concluiu aquele dia no quintal.

Enquanto desfrutava dos tragos finais de seu cigarro e almejava um gole de refrigerante, limpou os olhos marejados e respirou fundo.

Era isto: não nascera para o amor.
Não por falta dele. Não por não amar. Não por não ser amada.
É que o amor que não é recíproco não merece ser amado, e parecia-lhe que quanto mais amava seu desamor e via-o amando um outro amor, o sentimento empedrava dentro de si, tornando-lhe firme e quase imóvel.

Quase.

Mas os olhos se mexiam, como sempre, a procura de qualquer notícia, e em toda notícia, buscavam quase que incansavelmente um sinal. 

Quase.

Cansaram. 
Estes olhos exaustos do que veem já não são vistos chorando. Estes, toda noite, cerram-se antes de adormecer numa prece sufocada, implorando para o esquecer.

Mas demora a perceber que o amor da vida do amor da sua vida pode não ser você. 
E é difícil perceber e não arrefecer.
Agora os olhos são opacos.

E agora, que os olhos são opacos, como é que fica?
Será que existe ternura, embora tenha ido todo o brilho, ou aquele olhar está tão vazio quanto baixo?

Não sei mais o que faço.

É tão triste ver uma mulher perdendo seu brilho. É quase como uma estrela caindo.

Será que deixa vítimas nos arredores? 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Eu gosto desse teu retrato. Deve ser de tanto ter lhe visto assim, na janela sorrindo pra mim, contando tuas hístórias sem fim... Mas bem me lembro de quando chorastes ali pela primeira vez. Eu também quis chorar, mas não o fiz. Mas também achei linda a tua dor, quase que gostei. Tu, tão forte e inabalável, entregue àquela insaciável saudade. Quisera eu poder curá-la, mas pareceu-me finalmente tão humana.
Foi ali que abracei-te e arrisco dizer que meu coração sorriu.
Sempre pensei saber que a vida tinha desses momentos, sempre ouvi falar. E eu jurava ter vivido o meu, não sei exatamente quando, afinal, por sorte ou merecimento, tenho uma lista de momentos memoráveis, mas naquele dia eu soube, como num estalo, que não haveria a mínima possibilidade de que não fosses a mulher da minha vida: totalmente contrária à mulher dos meus sonhos, exatamente aquilo que meus olhos queriam ver.
E fui eternamente feliz naquele instante, enquanto choravas no meu colo.

Até que foi a minha vez de chorar. Mas eu bem que sabia que as coisas não são feitas pra durar... 

E sobre isso de amor da vida, espero que exista mais de um pra gente achar. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Temo que de tanto pedir a Deus para lhe esquecer, isso um dia realmente vá acontecer. 

(E eu não sei se torço ou não para isso se resolver.)

sábado, 4 de junho de 2016

Toda vez que choro por sentir, lembro de quando olhei pr'aqueles olhos verdes e jurei que amar não doeria mais.

Quando a lágrima morre no peito percebo que falhei.