Eis que acordo com batidas na porta às 13h de sábado.
"Deve ser sonho". Voltei a fechar os olhos e virei o rosto contra o travesseiro.
As batidas começaram a ficar mais fortes.
A campainha começa a tocar incansavelmente.
"Quem pode ser uma hora dessas?"
Era uma criança.
- Oi, o que você quer?
- Falar com você.
- Você está vendendo algo?
- Não.
- Está perdida?
- Mais ou menos.
- Ora... Quer entrar pra ligar pra sua mãe? Ou pro seu pai, não sei... Você tem o telefone de alguém? Tem pra quem voltar?
- Quero entrar, sim.
Aquela pequena criatura do cabelo negro, liso e pesado e dos lindos olhos puxados falava com tranquilidade, falava firme, que nem gente grande. Entrou e foi logo escolhendo lugar pra sentar: O tapete perto da TV.
- Não quer se sentar no sofá?
- Aqui tá bom.
...
- Então, você tem o telefone de alguém pra eu poder te ajudar?
- Não.
- Então como vou te ajudar?
- Não sei - e deu de ombros.
- Mas aonde você mora?
- Aqui pertinho.
- Sabe chegar lá?
- Aham.
- Então por que não vai pra casa, criatura? Achei que estivesse perdida!
A pequena virou o rosto e fixou o olhar numa antiga fotografia de família.
- Quem são?
- Meu pais... Mas me responda! Por que não volta pra casa?
- É mais perto do que você imagina, sabia?
- Como assim?
- Assim.
- Ora, quem é você?!
- Você.
- Não estou brincando! Quem é você?
- Você.
- Tudo bem. Vou lavar o rosto, vestir uma roupa e você me mostra onde é sua casa, tudo bem? - já irritada.
- Tudo bem. Já chegamos.
- Ah, você mora aqui? Essa é novidade pra mim...
- Sei que sim. Mas por que você nunca mais viu seus pais?
- Mas eu vejo meus pais!
- Sério? Quando foi a ultima vez?
- Tem pouco tempo. Um ano, um ano e meio, sei lá.
- Ah, eles moram longe? Aonde?
- Na verdade, não. Moram aqui na cidade mesmo.
- Então um ano e meio é muito tempo. Por que não os visita mais?
- Ah, não sei... Sinto a falta deles, mas não quero me reaproximar do meu pai. Tenho um certo medo de ser como ele, entende?
- Ele é ruim?
- Não exatamente.
- Então ele é como você!
- Não, claro que não... Deus me livre! Mas olhe só, eu discutindo minha vida com uma criança que nem ao menos me diz quem é... Vamos parar com o papo furado. Deixe eu me arrumar pra te levar pra casa!
- É, você não tem tanto do seu pai... Mas acho que você conhece alguém que tem. Lembra do Fernando?
- Fernando? Como você sabe do Fernando? - Sentei-me assustada no sofá perto da menina.
- Sabendo. Mas ele não é como seu pai?
- É... - Enquanto isso, só conseguia pensar "como ela sabe tanto? Como ela é tão desenvolta pra falar assim de minha vida?"
- E dele, você sente saudades?
- Não! Não mesmo!
- Nem um pouco?
- Nem um pouco! Vem cá, você é sobrinha dele ou algo assim? Quem te mandou aqui, hein?!
- Nossa, por que essa raiva ao falar dele? Você não era assim... Nunca te vi com raiva de ninguém... Raiva ou mágoa?
- Ué, você sabe o que houve entre nós? Acho que não... Pois se soubesse, me daria razão para sentir qualquer coisa ruim por esse ser desprezível!
- Mas que bela palavra: Desprezível!
- Como você é estranha, menina...
- Ora, somos, não acha?
- Somos? Não, você é! Olha só as coisas que você fala, não fazem nunca sentido completo.
- Também não faz sentido você sentir algo que não seja desprezo por alguém que define como desprezível.
- E pena, eu posso sentir, Sra. Sabe Tudo?
- Aí eu te encheria de razão! A não ser que...
- O que?
- Nada...
- Agora fala!
- Olha só, você não acha melhor se arrumar?
- É, talvez seja melhor. - Botei apenas um short decente, lavei o rosto escovei os dentes e fomos.
- É aqui.
- É aqui que você mora? Na casa do Fernando? Sabia que vocês se conheciam! Meu Deus, ele não cansa de ser patético.
- Bem, vamos entrar.
- Não. Está entregue.
- Por favor, entre comigo. Juro que não vai ser ruim. - A pequena deu-me a mão e me olhou com ternura.
Fui.
Entramos.
A porta rangeu.
Casa completamente vazia: Piso intacto, paredes completamente escuras de tão sujas. Não tinha móveis e nem nenhum tipo de decoração. Parecia mesmo uma casa abandonada.
- Está vazia. Cadê o Fernando? Se mudou?
- Não. Está aqui.
- Aonde?
- Aqui. Estamos no Fernando. Experimente falar algo alto.
- Oi! - O som ecoou.
- É realmente vazio, viu?
- Vi... Mas não entendo.
- Ta vendo as paredes sujas? São as marcas da loucura. Se debatendo de um lado pro outro, como numa solitária de hospício.
- Nada mais justo. - Soltei um riso irônico sem querer - Mas e o chão, por que está tão limpo e intacto?
- Tire os sapatos.
- Nossa, que gelo!
- Pois é... O chão está limpo pois era revestido por um lindo carpete para que ninguém percebesse o frio que se fazia em seu interior. E enganava muito bem, não é?
Com uma lágrima escorrendo pela maçã do rosto, falei quase que sussurrando de tão fraca que me senti:
- E como...
- Só queria te mostrar isso. Agora vamos antes que isso ele consiga tirar tudo o que lhe resta de forças.
- Vamos...
Chegando em casa, ainda trêmula e chocada com a experiência que tinha acabado de ter, ofereci um lanche à pequena que tanto que abriu os olhos.
- Não, deixa que eu faço. Quer chocolate quente, né?
- Como sabe? Você sabe tudo?! - disse em tom de brincadeira.
- Já disse, eu sou você!
E não é que era?
Mas é claro que era!
Por mais louco que isso fosse, aquela menina era eu!
Por incrível que pareça, não chorei com tal constatação, apenas sorri e a deixei livre pela casa, com seu jeito autoritário e meigo e suas opiniões mais maduras e sensatas que as minhas - por mais complexo que isso seja.
- Você entendeu o que eu quis que entendesse?
- Sobre o que?
- Fernando.... Você...
- Acho que sim...
- Sabe, ele é uma pessoa vazia. Precisa de um disfarce para que as pessoas o queiram visitar ou invadir, mas quem invade não fica por muito tempo, por isso não há nenhuma decoração. Pessoas vazias não acrescentam. Não deixe que ele te diminua.
- O que quer dizer?
- Não sinta raiva. Não sinta mágoa. Desprezo é mais digno.
- Sim...
- Não olha pro chão, não fica assim. Você sempre soube disso! Agora se anima e vamos ligar pros seus pais, tá bem?
Fechou a porta na primeira chamada do telefone.
Antes que eu pudesse dizer adeus, alguém dizia "alô" do outro lado da linha.
- Oi, alô... Mãe?
A culpada
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Só o ruivo me entende
Estranho.
Vejo-te sorrindo e penso que somos completos estranhos e acabamos de nos conhecer. E é assim toda vez. Parece sempre que somos estranhos que mal se viram e já se interessaram um pelo outro. Iniciamos as conversas sempre com um abraço firme, um sorriso largo e aquela timidez especial evidenciada pelo sorriso que fica fixo por pelo menos cinco minutos.
Com o tempo, o assunto flui e vamos nos sentindo confortáveis. Aí começam os assuntos bobos, as implicâncias e o contato visual concentrado.
Estranho.
Olho no olho e os olhos brilhando.
Brilhando de felicidade, até que eu te conto as minhas mágoas e você as suas, e então eles se entristecem e desejam fortemente que a tristeza esteja apenas nos meus olhos e não nos teus pequenos e belos olhos que deviam sempre sorrir, porque fazem isso muito bem.
É aí que voltamos aos bons assuntos, e os usamos como transição pra falar no assunto que mais nos interessa: Nós.
Estranho.
Temos desde sempre a mania de querer saber se estamos bem, a terrível e bela mania de se importar demais um com o outro.
Temos nossas vidas, distintas, mas a cada encontro, parece que as outras vidas ficam pra trás e pertencemos um ao outro, não por termos feito promessas ou juras, porque nunca fizemos e nunca quisemos, mas porque tudo realmente parece bem menor.
Já tivemos e ainda temos outros amores e outras paixões, sabemos disso. Mas quem é que lembra quando estamos abraçados sentindo o cheiro um do outro? Eu não lembro.
Estranho.
Porque eu posso passar meses ou dias sem você. Com saudade, mas sem desespero. Mas só de te ver eu já não entendo como pude ficar tanto tempo distante e só desejo que o mundo pare para que possamos dançar abraçados naquele eterno segundo que é nosso, evidentemente nosso.
Evidente por nossos olhares que se cruzam e sorriem antes e depois do longo beijo. Evidente pelo arrepio que sinto quando você me puxa pela cintura. Evidente pelos olhos fechados enquanto nos balançamos. Evidente pelos olhares distintos do público em nossa direção. Alguns sorriem, outros nem tanto. Mas quem liga pros outros? Eles jamais entenderão...
Estranho.
Porque nem eles e nem nós entenderemos a loucura de nossos momentos. Jamais seremos capazes de compreender a força que nos rodeia quando damos as mãos, mas sabemos que ela existe justamente por não querermos nos separar a cada reencontro.
Mas caímos sempre na bobeira de tentar entender...
Entender pra quê? Entender como?
A gente sabe o que é, só não entende. É forte demais. Tão forte que eu até estranho...
Ai, como esse amor maravilhosamente estranho me faz suspirar!
Estranho?
Talvez não... Nando Reis diria outra coisa.
Vejo-te sorrindo e penso que somos completos estranhos e acabamos de nos conhecer. E é assim toda vez. Parece sempre que somos estranhos que mal se viram e já se interessaram um pelo outro. Iniciamos as conversas sempre com um abraço firme, um sorriso largo e aquela timidez especial evidenciada pelo sorriso que fica fixo por pelo menos cinco minutos.
Com o tempo, o assunto flui e vamos nos sentindo confortáveis. Aí começam os assuntos bobos, as implicâncias e o contato visual concentrado.
Estranho.
Olho no olho e os olhos brilhando.
Brilhando de felicidade, até que eu te conto as minhas mágoas e você as suas, e então eles se entristecem e desejam fortemente que a tristeza esteja apenas nos meus olhos e não nos teus pequenos e belos olhos que deviam sempre sorrir, porque fazem isso muito bem.
É aí que voltamos aos bons assuntos, e os usamos como transição pra falar no assunto que mais nos interessa: Nós.
Estranho.
Temos desde sempre a mania de querer saber se estamos bem, a terrível e bela mania de se importar demais um com o outro.
Temos nossas vidas, distintas, mas a cada encontro, parece que as outras vidas ficam pra trás e pertencemos um ao outro, não por termos feito promessas ou juras, porque nunca fizemos e nunca quisemos, mas porque tudo realmente parece bem menor.
Já tivemos e ainda temos outros amores e outras paixões, sabemos disso. Mas quem é que lembra quando estamos abraçados sentindo o cheiro um do outro? Eu não lembro.
Estranho.
Porque eu posso passar meses ou dias sem você. Com saudade, mas sem desespero. Mas só de te ver eu já não entendo como pude ficar tanto tempo distante e só desejo que o mundo pare para que possamos dançar abraçados naquele eterno segundo que é nosso, evidentemente nosso.
Evidente por nossos olhares que se cruzam e sorriem antes e depois do longo beijo. Evidente pelo arrepio que sinto quando você me puxa pela cintura. Evidente pelos olhos fechados enquanto nos balançamos. Evidente pelos olhares distintos do público em nossa direção. Alguns sorriem, outros nem tanto. Mas quem liga pros outros? Eles jamais entenderão...
Estranho.
Porque nem eles e nem nós entenderemos a loucura de nossos momentos. Jamais seremos capazes de compreender a força que nos rodeia quando damos as mãos, mas sabemos que ela existe justamente por não querermos nos separar a cada reencontro.
Mas caímos sempre na bobeira de tentar entender...
Entender pra quê? Entender como?
A gente sabe o que é, só não entende. É forte demais. Tão forte que eu até estranho...
Ai, como esse amor maravilhosamente estranho me faz suspirar!
Estranho?
Talvez não... Nando Reis diria outra coisa.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Maria Ana
Dizem que hoje ela acorda cedo, cuida da casa, do filho e do marido.
Não se atrasa pro trabalho um dia sequer e nem pra deixar o pequeno na creche, e manda dinheiro todo mês pra sua mãe, que mora longe.
Anda impecável: Salto médio, meia-calça, cara pintada, cabelo escovado e corpo diariamente malhado.
Chega em casa cansada, com dor nos pés, faz um rango de dar água na boca, deita-se com seu homem e, por fim, dorme.
Dizem que leva vida de Maria.
Mas a Mariana que eu conheci levava vida de Ana.
Completamente louca e enlouquecedora.
Nunca foi boa com escolhas e nunca precisou, até então, escolher: tinha diversos homens aos seus pés e conseguia aproveitar o melhor de cada um deles, inclusive do que vos fala.
Só pensava em dançar, se divertir, dar risada e arrancar suspiros de quem estivesse por perto, com seu jeito alegre, sedutor e entusiasmado; Ela tinha muito projetos e sonhos e, acima de tudo, capacidade de sobra para por tudo em prática. Mas a preguiça conseguia ser maior.
Andava por aí de coque no cabelo, unha roída, cara lavada e um sorriso largo e sobressalente em seu rosto moreno. Falava grosso, com firmeza, intimidava muito marmanjo, mas tinha o coração mole que só vendo.
Fumava. Parava por alguns meses. Fumava mais que antes e parava de novo. Acho na verdade que ela nem gostava do fumo, mas tinha ciência do quanto ficava linda segurando um cigarro.
Ria por tudo, ria de tudo: Ria de suas alegrias, de seus problemas, de sua vida, dos outros e ria na cara dos outros. Nunca foi de fazer média com ninguém: Se gostava, tentava demonstrar; Se não gostava, demonstrava involuntariamente.
Andava sempre atraindo olhares e sendo atraída e traída pela vida.
Hoje já nem nos falamos.
Diria que não sei nem se ela ainda se lembra de mim, mas certamente lembra.
Não é possível que tenha perdido tudo que tinha de "Ana".
Joguei fora as cartas, os bilhetes, as fotos e o número de seu telefone.
Da Mariana, em minha vida, só resta a saudade.
E na vida dela, "Maria".
Não se atrasa pro trabalho um dia sequer e nem pra deixar o pequeno na creche, e manda dinheiro todo mês pra sua mãe, que mora longe.
Anda impecável: Salto médio, meia-calça, cara pintada, cabelo escovado e corpo diariamente malhado.
Chega em casa cansada, com dor nos pés, faz um rango de dar água na boca, deita-se com seu homem e, por fim, dorme.
Dizem que leva vida de Maria.
Mas a Mariana que eu conheci levava vida de Ana.
Completamente louca e enlouquecedora.
Nunca foi boa com escolhas e nunca precisou, até então, escolher: tinha diversos homens aos seus pés e conseguia aproveitar o melhor de cada um deles, inclusive do que vos fala.
Só pensava em dançar, se divertir, dar risada e arrancar suspiros de quem estivesse por perto, com seu jeito alegre, sedutor e entusiasmado; Ela tinha muito projetos e sonhos e, acima de tudo, capacidade de sobra para por tudo em prática. Mas a preguiça conseguia ser maior.
Andava por aí de coque no cabelo, unha roída, cara lavada e um sorriso largo e sobressalente em seu rosto moreno. Falava grosso, com firmeza, intimidava muito marmanjo, mas tinha o coração mole que só vendo.
Fumava. Parava por alguns meses. Fumava mais que antes e parava de novo. Acho na verdade que ela nem gostava do fumo, mas tinha ciência do quanto ficava linda segurando um cigarro.
Ria por tudo, ria de tudo: Ria de suas alegrias, de seus problemas, de sua vida, dos outros e ria na cara dos outros. Nunca foi de fazer média com ninguém: Se gostava, tentava demonstrar; Se não gostava, demonstrava involuntariamente.
Andava sempre atraindo olhares e sendo atraída e traída pela vida.
Hoje já nem nos falamos.
Diria que não sei nem se ela ainda se lembra de mim, mas certamente lembra.
Não é possível que tenha perdido tudo que tinha de "Ana".
Joguei fora as cartas, os bilhetes, as fotos e o número de seu telefone.
Da Mariana, em minha vida, só resta a saudade.
E na vida dela, "Maria".
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Súplica
Ao pensar em ti, torna-se cada vez mais inevitável não sentir falta do teu toque, da tua mão na minha nuca e do meu pescoço na tua boca.
Eu quero ficar.
E ao ouvir tua voz, sinto o mesmo arrepio de quando falas baixinho, só pra mim, sussurrando com um timbre diferente do habitual.
Aí eu lembro dos meus detalhes favoritos: o teu cabelo liso e leve, que tem sempre cheiro neutro, a tua nuca perfumada e tuas mãos firmes e seguras.
Seguras por já saberem o caminho certo, por já saberem bem por onde vão. E vão com paixão, sempre como se fosse a primeira vez e, ao mesmo tempo, como se fosse a última.
Como não lembrar das tuas costas arranhadas, dos teus lábios mordidos e dos teus cabelos que eu costumava puxar alternando com os travesseiros e cobertas?
Como não lembrar dos dentes que cravavam em meu pescoço, da mão que marcava minha coxa e do hálito fresco que se tornava meu?
Como?
Quem dera saber...
Como o esquecer o teu sorriso pela manhã ao me acordar para tomar café, da tua preguiça de se vestir e da tua vontade de ficar?
Vontade, aliás, que me domina.
Eu quero ficar.
Não vai, o mundo é ruim demais!
Me abraça, dança comigo, mas por favor, não vai de novo!
E se for, me leva!
Mas só me tira desse quarto se for pra me levar pro teu.
E que ele se faça nosso.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
A minha amiga Camila
Estou escrevendo por puro cansaço. Cansaço da vida, dos problemas e, principalmente, cansaço da Camila. É, estou farto dela.
Por quantas noites mais terei de abraçá-la, enxugar suas lágrimas, consolá-la, aconselhá-la e depois vê-la partir pela manhã rumo aos mesmo erros?
Quantas horas mais gastarei ao telefone ao longo do dia ouvindo seus murmúrios, suas queixas e seus problemas sempre tão iguais?
Até quando terei de lidar com seu descompromissado e despercebido egoísmo? Até quando?!
Sabe o que é mais engraçado nisso tudo? Quando falo assim, o egoísta passa a ser eu.
E também é por isso que escrevo. Como poderia dizer isso à Camila quando ela me vem com aqueles amendoados olhos castanhos cheios d'água e a pele alva avermelhada de tanto tentar sessar o choro?
Como poderia dizer qualquer dessas palavras quando ela me liga com a voz trêmula e pergunta se eu tô podendo falar? E como eu poderia dizer que não?
Como poderia dizer qualquer dessas palavras quando ela me liga com a voz trêmula e pergunta se eu tô podendo falar? E como eu poderia dizer que não?
Será que Camila não percebe o que ela faz? Será que ela realmente não sabe que sua dor acaba tornando-se minha?
Que ódio! Que ódio!
Se ela não sabe, que ódio da sua ingenuidade em não saber o quanto a amo e o quanto dependo de sua felicidade para ser feliz.
E se ela sabe... Que ódio dessa teimosia em insistir nesses erros cada dia mais óbvios e escancarados.
Como uma pessoa pode ser tão boa como Camila?
Quero dizer, se ela realmente souber o que faz, como diz que sabe, ela é, certamente uma das melhores pessoas que hei de conhecer.
Mas se não sabe e fala apenas para esquivar-se da culpa e do julgamento, como pode ser tão boba? Evito o termo, mas acaba se tornando inevitável neste caso: Como pode ser tão burra?
Outra coisa que eu não entendo é como consigo sentir tanto ódio da pessoa que eu mais amo. E não entendo também como posso amar tanto alguém assim.
Sabe, Camila é ótima!
Camila é fã de teatro e cinema, conhece diretores, atores e essas bandas bacanas de cidades com nomes difíceis de pronunciar, ama animais e fica extremamente retardada e adorável quando vê filhotes. Ama crianças e já tem nomes planejados para os três filhos que pretende ter, é inexplicavelmente esperta, astuta e inteligente, argumenta como ninguém, tem uma relação maravilhosa com a família e com o resto do mundo. Raramente ouvi falar de alguém que tivesse algo contra Camila o tentasse fazer mal a ela.
Mas o que me irrita é que ela é sentimentalmente imbecil. A palavra é essa. O seu histórico amoroso é pavoroso.
A cada namorado que apresenta à família, sua mãe já começa a temer o pior. E não é pra menos.
Enquanto isso, cá estou: Sofrendo pelo sofrimento de minha amada.
Amada, aliás, ciente de que é amada por mim.
Amada que não ama, só pensa amar.
Mas um dia ela saberá que a proporção de sofrimento não term haver com amor.
Um dia ela vai decidir ser feliz. Tenho plena certeza disso. Ela merece decidir isso.
E aí, quando Camila resolver olhar pro lado, será plenamente feliz.
Juro pela minha felicidade, por mais redundante que isso possa ser, se é que me entende.
Agora vou-me. O telefone tá tocando.
Coleção.
De ti, guardo apenas algumas fotografias, tua caneca favorita, o cheiro nas cobertas, a saudade desenfreada e o ciúme costumeiro.
Que péssimo costume o meu. Péssimo de fato, pois cada vez que vejo-te com outro rapaz, meus olhos enchem d'água. E cada vez que penso que esses tais rapazes recebem os teus beijos meus, as lágrimas tomam outra conotação.
Como tudo mudou tão rápido? Como tudo ainda muda tão rápido em sua vida? Por que tens de ser tão volúvel?
Às vezes penso que o errado sou eu, compreende? Penso que não tenho capacidade de acompanhar mudanças bruscas e que não sou adepto a elas, quando o natural seria ser como você. Mas de tanto ouvir dos meus amigos que você é maluca, tomei isso como verdade e tento absolver-me da culpa.
Renata, és completamente louca! Como podes ser assim, meu bem? Aliás, como podes ser assim e manter a face inocente e os olhos pretos brilhantes que transparecem tanta doçura e verdade?
E como podes ser tão verdadeira? Isso é o que eu menos entendo e o que mais me revolta! Como consegues tantos amores e amantes contando a eles todas as verdades que lhe pedem e até as que não lhe pedem?
Ah, Renata, eu queria era não saber das tuas verdades. Já chorei por algumas diversas vezes e sei que hei de chorar por outras. E pelas mesmas.
Meu bem, admiro o seu dom de mudar o tempo todo. Uma hora sente e na outra já está insensível e intocável. Numa hora chora e segundos depois ri tanto que chega a chorar novamente. E em momento algum, em seu rosto moreno e macio, se pode ver arrependimento pela mudança.
É... Você não muda nunca!
Ah, Renata, por que você não muda? Por quê?!
Por vezes pensei sentir um ódio infindo de ti. Ledo engano.
Era ódio, sim. Certamente. Ódio dos grandes! Mas era ódio de mim, por não conseguir ver-te por um segundo sequer com os olhos que gostaria. Vejo-te com os habituais olhos apaixonados que sorriem de tristeza pedindo por conforto.
E dói. Dói muito.
Mas por que falo-te isso? Já sabes há muito tempo... Sabes, aliás, que não sou o único.
Sabe, Renata, você não muda porque nunca precisou mudar. Por que precisarias? Podes ter o amor que quiseres, sempre que quiseres, pois aprendeu a cativar e cultivar as pessoas, e ao mesmo tempo que maltrata os corações que a ti pertencem, sabes como acalmá-los com tuas palavras que obviamente mudarão em pouco tempo, mas que por agora soam e são tão sinceras.
E se não convencer?
Aí é só passar aquele batom vermelho, soltar os negros cabelos pesados e sorrir.
Que péssimo costume o meu. Péssimo de fato, pois cada vez que vejo-te com outro rapaz, meus olhos enchem d'água. E cada vez que penso que esses tais rapazes recebem os teus beijos meus, as lágrimas tomam outra conotação.
Como tudo mudou tão rápido? Como tudo ainda muda tão rápido em sua vida? Por que tens de ser tão volúvel?
Às vezes penso que o errado sou eu, compreende? Penso que não tenho capacidade de acompanhar mudanças bruscas e que não sou adepto a elas, quando o natural seria ser como você. Mas de tanto ouvir dos meus amigos que você é maluca, tomei isso como verdade e tento absolver-me da culpa.
Renata, és completamente louca! Como podes ser assim, meu bem? Aliás, como podes ser assim e manter a face inocente e os olhos pretos brilhantes que transparecem tanta doçura e verdade?
E como podes ser tão verdadeira? Isso é o que eu menos entendo e o que mais me revolta! Como consegues tantos amores e amantes contando a eles todas as verdades que lhe pedem e até as que não lhe pedem?
Ah, Renata, eu queria era não saber das tuas verdades. Já chorei por algumas diversas vezes e sei que hei de chorar por outras. E pelas mesmas.
Meu bem, admiro o seu dom de mudar o tempo todo. Uma hora sente e na outra já está insensível e intocável. Numa hora chora e segundos depois ri tanto que chega a chorar novamente. E em momento algum, em seu rosto moreno e macio, se pode ver arrependimento pela mudança.
É... Você não muda nunca!
Ah, Renata, por que você não muda? Por quê?!
Por vezes pensei sentir um ódio infindo de ti. Ledo engano.
Era ódio, sim. Certamente. Ódio dos grandes! Mas era ódio de mim, por não conseguir ver-te por um segundo sequer com os olhos que gostaria. Vejo-te com os habituais olhos apaixonados que sorriem de tristeza pedindo por conforto.
E dói. Dói muito.
Mas por que falo-te isso? Já sabes há muito tempo... Sabes, aliás, que não sou o único.
Sabe, Renata, você não muda porque nunca precisou mudar. Por que precisarias? Podes ter o amor que quiseres, sempre que quiseres, pois aprendeu a cativar e cultivar as pessoas, e ao mesmo tempo que maltrata os corações que a ti pertencem, sabes como acalmá-los com tuas palavras que obviamente mudarão em pouco tempo, mas que por agora soam e são tão sinceras.
E se não convencer?
Aí é só passar aquele batom vermelho, soltar os negros cabelos pesados e sorrir.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Menina Marina Mulher
Pena mesmo eu sinto da Marina.
Já tentei sentir raiva, mágoa, aversão, mas Marina só consegue despertar o pior em mim: Pena.
Por que teria raiva de uma pessoa como Marina?
Pelas tentativas desenfreadas de mostrar-se superior? Pelas mentiras tão bem elaboradas que já fazem parte de sua "vida real"? Pelo dom natural de prejudicar quem se aproxima?
Eu sinto é pena!
Mágoa? Mágoa de quê? Mágoa por quê? Pelo tempo jogado fora? Pelas lágrimas a menos? Por um coração partido no passado?
Ah, Marina, eu sinto é pena!
Aversão eu já pensei sentir.
Às vezes surge a dúvida, confesso. Mas não... A aversão seria exatamente à quê? Ao jeito mesquinho que Marina leva a vida? Á insignificância que ela dá à vida e ao sentimento alheio? Às múltiplas faces imundas nas quais ela se esconde atrás?
Não, não é aversão. É pena!
Ah, Marina, que pena de você!
Até mesmo esse copo suado de conhaque com gelo derretido me interessa mais.
Como és desinteressante! Como és crua, no pior sentido possível!
Se até os teus olhos cansaram de brilhar, como esperavas que não me cansarias de tu?
Pobre Marina.
A verdade, Marina, é que às vezes penso sentir sua falta, apesar dos pesares.
Lembro-me da menina Marina que me foi apresentada.
Tão esperta, tão viva, tão sorridente, tão forte, tão simples, tão complexa!
O que vejo hoje é uma Marina mulher.
Uma mulher diferentemente esperta. Que tem suas máscaras e sabe como usá-las.
Uma mulher que joga o cabelo, levanta o olhar e sabe qual vestido cai bem.
É, isso funciona...
Mas não comigo.
Marina, nem a tua face mais doce me encantada.
Não encanta justamente por lembrar-me da verdadeira: Tão sem-sal.
Já tentei sentir raiva, mágoa, aversão, mas Marina só consegue despertar o pior em mim: Pena.
Por que teria raiva de uma pessoa como Marina?
Pelas tentativas desenfreadas de mostrar-se superior? Pelas mentiras tão bem elaboradas que já fazem parte de sua "vida real"? Pelo dom natural de prejudicar quem se aproxima?
Eu sinto é pena!
Mágoa? Mágoa de quê? Mágoa por quê? Pelo tempo jogado fora? Pelas lágrimas a menos? Por um coração partido no passado?
Ah, Marina, eu sinto é pena!
Aversão eu já pensei sentir.
Às vezes surge a dúvida, confesso. Mas não... A aversão seria exatamente à quê? Ao jeito mesquinho que Marina leva a vida? Á insignificância que ela dá à vida e ao sentimento alheio? Às múltiplas faces imundas nas quais ela se esconde atrás?
Não, não é aversão. É pena!
Ah, Marina, que pena de você!
Até mesmo esse copo suado de conhaque com gelo derretido me interessa mais.
Como és desinteressante! Como és crua, no pior sentido possível!
Se até os teus olhos cansaram de brilhar, como esperavas que não me cansarias de tu?
Pobre Marina.
Lembro-me da menina Marina que me foi apresentada.
Tão esperta, tão viva, tão sorridente, tão forte, tão simples, tão complexa!
O que vejo hoje é uma Marina mulher.
Uma mulher diferentemente esperta. Que tem suas máscaras e sabe como usá-las.
Uma mulher que joga o cabelo, levanta o olhar e sabe qual vestido cai bem.
É, isso funciona...
Mas não comigo.
Marina, nem a tua face mais doce me encantada.
Não encanta justamente por lembrar-me da verdadeira: Tão sem-sal.
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