A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

domingo, 8 de abril de 2012

Eu to com vontade de sentir vontade de você. Aliás, eu tenho vontade de sentir vontade de você.
Não é bem uma vontade, é meio que uma necessidade. Necessidade de sentir vontade de ter vontade de você. É necessidade porque se eu não sentir essa vontade as coisas pioram, e olha que já não estão boas...
Se eu sentisse vontade de você, tudo seria bem mais fácil para nós dois. O final feliz talvez até existisse, e se não existisse, seria porque não haveria final.

Eu queria sentir a mesma vontade que você, porque só assim eu não me sentiria em dívida. Sei que você sente muito... Eu queria ter vontade, eu juro que queria...

Mas eu não tenho.
A vontade que eu sinto de sentir vontade de você, de mim, de nós dois é maior do que qualquer eventual vontade que eu possa sentir.
Eu não tenho essa vontade a te oferecer, mas eu vou fazer a sua vontade e vou ser sempre sincera.

Eu não sinto vontade. Eu tento, mas não sinto. Tento tanto que estou sempre ansiosa pro momento em que finalmente ela poderia chegar, mas ela nunca chegou. E de tanto tentar, estou com ânsia de vômito.

Eu nunca quis te magoar, mas acho que é a única coisa que consigo fazer por você nesse momento. Sinto pouco, é isso.

Sinto muito.
Adeus.

terça-feira, 20 de março de 2012

Eu comecei a pensar sobre o amor quando tentava escrever e nada vinha a minha cabeça.

Aí eu parei.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Veio o primeiro teste. E o segundo, e o terceiro, e assim, assim foi.
Foi tanto que estacionou. Cobraram-me um preço abusivo por aquela vaga. Paguei.
Precisei dar marcha à ré para conseguir sair. Saí.
E eles voltaram. Nunca imaginei isso, mas eu não os queria.
Direção, cenografia, figurino, maquiagem... Eu não aguentava mais uma linha sequer do roteiro de minha vida.
Cena final. Ação.
Acelerei. Fechei os olhos. Barulho de forte colisão e explosão de vidros. Grito agudo e abafado. Vinheta instrumental ao fundo e um corpo no chão vestindo roupas rasgadas que mais pareciam farrapos. A luz diminui aos poucos.
Descem os créditos finais.
Aplausos e lágrimas emocionadas.


Amém.

domingo, 4 de março de 2012

Eu sempre pensei que existia muita coisa entre o sim e o não, entre o certo e o errado. Ledo engano...
Esse é mais um texto sobre sentimentos. Aliás, pode ser um texto sobre a falta deles. Na verdade, não sei se é um texto sobre sentimentos ou sobre sentidos.
Sempre ouvi dizer que o amor é essencial, que todos o tem dentro de si, por mais escondido que esteja. E ouvi também que o amor se sente com os cinco sentidos: olfato, paladar, audição, visão e tato. O que mais me intriga é o tato. É por conta dele que eu desconfio que o amor acabou.
No início, começava com um beijo no pescoço, daqueles bem próximos, que dá pra sentir o cheiro do perfume e até pra reconhecer o shampoo que ele usava em seus cabelos lisos que estavam sempre bagunçados. Depois vinha uma lambida na qual se sentia um gosto um pouco salgado, por conta do suor misturado ao perfume. As palavras sussurradas ao meu ouvido eu guardo pra mim, se me permitem. Eu olhava em volta, via aquele quarto sempre bagunçado, sorria, e então me voltava para seus olhos. E então, com seu toque, o mundo fazia sentido. Aliás, não fazia e nem precisava.

Hoje em dia, a única parte diferente é a do tato. Eu faço tudo, o toque é o mesmo, mas eu não sinto. Daí comecei a confundir sentimentos com sentidos.




É tudo uma coisa só.

quinta-feira, 1 de março de 2012

- Você vai querer ser enterrado ou cremado?
- O que?
- Quando você morrer, oras.
- Sei lá. Por que isso agora?
- Não sei... Estava pensando sobre a morte... Eu acho que quero que me enterrem.
- Por que?
- Porque eu tenho medo de fogo.
- Mas você vai estar morto.
- Vai saber, né?
- Como assim?
- Sei lá, vai que eu tô vivo mas pensam que tô morto...
- Ah, claro...
- Ué, é possível. Se bem que eu sou claustrofóbico... E se me enterrarem vivo?
- Pelo amor de Deus, para de imaginar essas coisas loucas e muda de assunto.
- Mudar de assunto por que? Você tem medo de morrer?
- Não... Não exatamente.
- "Não exatamente"? Como assim?
- Não tenho medo da forma que vou morrer. Não pretendo morrer dormindo, como a maioria das pessoas.
- Ainda não entendi...
- Não me importa se vou sentir dor ou não, entende? Não tenho medo do sofrimento antes da morte. Depois vou esquecer, não vou lembrar, não vou ter traumas ou sequelas, então não ligo pra isso.
- Então do que você tem medo?
- Não sei... Como será o paraíso?
- Provavelmente é bom, ué.
- E o inferno?
- Prefiro nem imaginar...
- E se eu for pra lá?
- Você merece ir pra lá?
- Acho que a questão é não merecer ir pro paraíso, não?
- Não. O inferno também é questão de merecimento.

Silêncio...

- E se não merecer nenhum dos dois?
- Aí eu acho que você continua vivo até merecer.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tentei arrumar meu armário. Não consegui.
Sempre ouvi comparações sobre a arrumação de armário com a arrumação de sentimentos. Bem, de acordo com o caos que estava meu armário, a comparação entre armário e sentimentos parecia ser bem verdadeira.
Tentei então arrumar os sentimentos.
Deitei, acendi um cigarro, dei uma longa tragada, fechei os olhos, pensei e soltei. O cheiro da fumaça inundou o ambiente.
Permaneci com os olhos fechados e tentei organizar minhas prioridades entre uma tragada e outra. Consegui, em partes. Mas cadê aquela parte essencial que rouba alguns segundos do meu sono diariamente? Cadê aquele alguém que as vezes me faz derramar lágrimas tão involuntárias quanto a respiração ofegante a cada encontro casual?

Cadê?

Percebi que meu coração sempre esteve arrumado. Só enxergo as coisas boas. A parte ruim eu não alcanço.
Não por ser inexistente, mas sim porque a cabeça está tão ruim quanto a parte esquecida.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sete passos. Parei. Olhei para trás. Não tinha ninguém. Prossegui. Tornei a olhar pra trás. Ninguém de novo. Eu já sabia, a segunda olhada foi só por garantia.
Cheguei exausta ao último posto da Orla de Copacabana. Sentei num desses quiosques à beira-mar para tomar água de coco e descansar um pouco, para então voltar ao primeiro posto. Fechei os olhos. Em menos de dois segundos senti necessidade de abri-los. Senti que não estava sozinha. E não estava.
- Boa tarde, senhora, o que deseja?
- Ah, me vê uma água de coco, por favor.
Voltei a fechar os olhos. Desta vez permaneceram cerrados por mais tempo. Até que tive que abri-los, de novo, para deixar aquela lágrima, que teimava em em querer aparecer, escorrer pela maçã de meu rosto.
Sim, era apenas uma. Veio sozinha. Singular. Sem par... Coincidentemente ou não.
Veio do olho esquerdo, e, ao terminar o circuito por meu rosto, desceu direitamente até meu peito. Enxuguei-a. Não queria nada ali. Pelo menos não até descobrir o que ali havia.

Não é bom misturar o desconhecido.
E nem um velho conhecido já esquecido.