A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um dia perguntaram a mim porque a Denise é minha melhor amiga. "Que pergunta idiota", pensei. Respondi, então:
- Porque entre todas as minhas amigas, ela consegue ser a melhor! Não temos segredos sobre assunto algum, fazemos tudo juntas. Sempre saímos sozinhas para falar besteira, ver filmes, fofocar, fazer compras... Ela tem os mesmos gostos que eu, sabe?
- Sei...
- Não sei explicar... Ela me entende perfeitamente! Mesmo quando to prestes a fazer a maior bobagem da minha vida, ela me apoia, e quando dá errado, ela sempre está ao meu lado pra me consolar e ajudar a recuperar o ânimo.
- Entendi... Mas por que o Fábio é teu melhor amigo?
- Como assim?
- Quero dizer, você não conta tudo a ele. Conta?
- Bom, quase tudo...
- Mas não tudo. Seria estranho uma mulher contar a um homem sobre outros homens ou qualquer tipo de mulherzice.
- Sim, mas mesmo assim, né...
- E suponho que você não saia com ele para fofocar, ver filmes ou fazer compras, porque pelo que eu sei, o Fábio não é gay, não.
- Tá. Aonde você quer chegar?
- E também acho que ele não deve te entender perfeitamente e nem te consolar e apoiar mesmo quando você é burra e faz bobagem. Homens, no geral, tendem a ser menos sensíveis.
- Ok, chegue logo ao ponto que você quer chegar.
- Não to querendo chegar a ponto nenhum. Só não entendo como você (e a maioria das mulheres) diz que se dá melhor com amigos homens, sendo que nem com teu "melhor amigo" você tem tanta afinidade.
- Pra você ver como mulher é insuportável: Não aturamos nossa própria raça.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

De repente ouviu alguém o chamar por um apelido que não ouvia desde a faculdade...
- Ô Marconete!
Olhou pra trás assustado e bem surpreso. Fechou um pouco os olhos como quem tenta reconhecer alguém. Em sua direção vinha um homem bastante familiar com os braços abertos.
- Eduardo?
- Porra, achei que não ia me reconhecer!
- Caralho, irmão, como você tá?
- Eu tô bem, e você?
- Também tô!
Um analisou o outro por volta de vinte segundos.
- Mas fala aí, tá indo aonde assim, todo engomadinho?
- Tô indo pro escritório. Resolvi trabalhar com meu pai. E você, tá fazendo o que da vida?
- Ah, eu tô desempregado...
- Pô, que chato, cara.
- Nem tanto, ainda tenho tempo pra pegar aquela praia de sempre - riu descontraído.
- Pois é, eu não descanso há um tempo...
- Imagino. Vamo comer alguma coisa, tem uma lanchonete muito boa aqui por perto.
- Pô, cara, te falar que to mega atrasado... Mas aceito tomar um café.
- Bora, então.
Chegaram no café.
- E ai, tem visto alguém da facul?
- Não... E você? Ah, e a Marcinha, aquela tua namorada, tem notícias dela?
- Tamo junto até hoje, pô.
- Sério?
- Sério!
- Caraca!
Conversaram cerca de 5 minutos...
- Então, cara, tenho que ir pro trabalho.
- Beleza, vai lá. Me dá teu número pra gente marcar alguma coisa!
- Claro! Aqui meu cartão. - Entregou a ele e sorriu cortês.
- Então te ligo esses dias, já é?
- Pode ser! Falou então, cara! Até logo!
- Até...
Viraram as costas e cada um foi pra seu canto... Quarenta segundos se passaram, aproximadamente.
- Marcos!
- Oi! - Virou-se surpreso.
- Tu tá feliz?
- Como assim? Claro que tô.
- Mó solzão e você ai de terno. Não tem tempo pra conversar nem com um bom amigo, acha que tomar um café é o suficiente. Tomar um café leva cinco minutos, e esse é o tempo que você tem disponível no seu dia.
- Não é bem assim, né, cara.
- Não é? Você tá com quantos anos? Trinta e cinco? E não tá de aliança. Trabalha tanto que ainda tá solteiro. Ou tá namorando?
- Não, não... To solteiro mesmo. Mas é porque eu quero!
- Sem essa, cara.
- Ah, e você? Em plena segunda-feira você tá andando na rua de chinelo e bermuda, desempregado, não quer nada da vida... Você realmente acha que tá melhor do que eu?
- Eu tenho tempo pra mim, pra minha esposa...
- Tem tempo até demais.
- Eu sou feliz, cara. Você não tem tempo nem pra isso.

sábado, 22 de outubro de 2011

Não esqueci. Foi o primeiro, não tinha como esquecer.
Sei lá, era um sorriso que me invadia e ao mesmo tempo pedia permissão pra entrar... Cavalheiro até nisso. Todo dia em que nos víamos, chegava em casa, tomava banho sorrindo e cantarolando e depois deitava em minha cama com meu diário e, com o mesmo sorriso do banho, começava a escrever. Ficava ali por horas. As vezes não escrevia nem duas linhas, mas só de lembrar cada detalhe de seu rosto, de seu corpo... Ah, eu sorria. E tinha razão para tal.
O cabelo não recebia os cuidados que deviam, mas ainda assim era uma delícia puxa-los por baixo, bem junto a nuca. Ah, e o sorriso... É, voltei a falar disso. É que só eu sei o quão encantador ele era. Era quase que um convite para dançar agarradinho no baile de formatura. Os braços eram fortes na medida, as costas largas, lisas e, na época, um pouco arranhadas por mim. Hoje em dia não sei mais.
Tô feliz. Ele também está. Encontrou alguém que o ama. Não sei se tanto quanto eu, mas tenho certeza que ama. Impossível não amar. Só me dói pensar que aquele olhar convidativo agora é de outra, que as carícias, os gritos e os sussurros não são mais pra mim...
Lembrei disso tudo porque nos esbarramos hoje na rua. Lembrei não, resolvi contar.
"Tô bem, e você?
Poxa, que bom, fico feliz.
É, maior tempão mesmo...
Vamos marcar alguma coisa qualquer dia desses!
hahaha combinado!
Beijos!"
Isso foi o bastante pra eu me recordar perfeitamente de cada toque, de cada cheiro, de cada gesto, de cada palavra, de cada sorriso... Sorriso esse que não vejo no espelho desde o ultimo adeus.

Mas eu juro que tô bem.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sem ti

Senti um calor quase que inexplicável para uma tarde de inverno
Senti que mais nada seria impossível
Senti que tudo o que era complicado, se tornaria terno

Senti que a brisa fria que vinha do mar poderia consolar
Senti que a eternidade existe
Senti que não há mal algum que não se possa curar

Senti um vendaval de emoções e gostei
Senti que o medo nem sempre é ruim
Senti que amo essas coisas que não sei

Senti em mim um vazio profundo
Senti que não mais fazia sentido o mundo
Senti cada vez mais longe de mim um alguém que já sentiu isso tudo

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Não sei por que escrevo, pra falar a verdade. Sei quando escrevo. Escrevo quando estou triste.
Tenho escrito bastante ultimamente... Deve ser tristeza em demasia. O motivo da tristeza eu já não sei. Acho que não é uma única coisa. São coisas distintas, sabe? Não sabe? Nem eu.
Mas pera lá. Não ando tão triste assim. De vez em quando escrevo quando estou normal. To pensando e daí escrevo, como agora, por exemplo. Será que a tristeza se tornou meu estado normal? Que horror, que horror! Essa ideia, por si só, já é um tanto quanto triste.

...

O que eu to falando? Acho que to falando sobre o que estou sentindo. E quem liga? Aliás, a pergunta é outra: O que eu estou sentindo? E ai sim vem aquela pergunta: E quem liga?
Bom, eu não ligo... Dizem que eu devia ligar, que é bom ter domínio sobre seus sentimentos. É, costumava ser bom.

Desaprendi....
Desaprendi?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quando tinha lá para os dezoito anos, ouviu de todo mundo "essa faculdade de música não vai te levar a nada", mas resolveu arriscar e fazer o que lhe dava prazer. Aprovada. Ingressou na faculdade. Começou a trabalhar num escritório para poder ter um pouco de independência. Lá conheceu José, filho do dono do escritório, advogado recém-formado e de ótima aparência. Namoraram. Com seis meses de namoro, ele quis ter mais intimidade, convidou-a para morarem juntos em seu apartamento na Zona Sul. Os pais dela não apoiaram. "Você é muito jovem, minha filha. Além do mais, vocês nem se conhecem direito. Com seis meses não dá pra se saber caráter de ninguém." Estava apaixonada e decidida a ir. Fez as malas. "Se for, não volta mais pra casa. Isso que você está fazendo se chama dar-as-costas-pra-família." Deu as costas pra família e foi.
Ficaram em harmonia por 2 meses, e então começaram as brigas. "Essa faculdade não te faz bem. Te dou tudo o que você quer, você não precisa trabalhar ou estudar. Larga essa merda ou eu te largo." Largou a faculdade.
As brigas voltaram a se menos frequentes por um breve período, e depois tudo voltou a ser como era. No quinto mês que moravam juntos, a casa caiu. O relacionamento beirava o insuportável. Terminaram e, consequentemente, ela ficou sem emprego. Não podia voltar pra casa, foi morar com uma amiga. Teve de arranjar um emprego pra poder alugar alguma coisa em breve, para não incomodar tanto a amiga.
Conseguiu um emprego numa loja. Ganhava razoavelmente bem, mas não o suficiente para se manter sozinha. Conheceu um cara legal que também se interessou por ela. O caso durou dois meses. Ele era tudo o que ela procurava, mas não podia se dar o luxo de se apaixonar por um cara sem grana nessa altura do campeonato. Não conseguiu voltar pra faculdade, mas encontrou um conjugado pra alugar. Alugou e continuou a trabalhar na loja para pagar o aluguel.
Hoje tem trinta e quatro anos, trabalha numa loja de móveis, mora num apartamento alugado e simples, porém bem aconchegante.
- Queria que fosse diferente...
- Mas e se fosse pior?

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

- Ah, amiga, você está bem?
Fez com a cabeça que sim.
- Não tá nada, o que houve?
- To bem, sim, Marcela.
- Você tá chorando? Meu Deus, você tá chorando... Me explica, por que você tá chorando?
- Não to chorando.
- Então um cisco caiu no seu olho, né?
- Aham.
- Pensa que me engana, né? Anda, fala logo. É pelo Gustavo, não é?
- Não... - Começou a chorar ainda mais.
- Ai, Senhor, é sim. O que esse imbecil te fez?
- Terminamos.
- Por que?
- Longa história, te conto depois.
- Poxa, amiga... De qualquer forma, não fica triste, foi melhor assim, não foi?
- Não sei.
- Como não sabe? Com tanta briga, tanto problema, era melhor terminar logo, não?
- Não tenho certeza. Eu gosto dele, você sabe.
- Sei, sim. Só não sei o que viu nele. Alias, o que você viu nele, hein?
- Também não sei.
- E tá ai chorando... Complicada você, hein?
- É.
- Olha, quer sair pra relaxar?
- Não.
- Pra beber?
- Não.
- Pra comer besteira?
- Não.
- To tentando ajudar e é assim que me responde? Poxa, esperava mais de você, hein?
- Marcela, faz o seguinte: Para!
- Com o que?
- Com isso.
- Isso o que?
- Isso.
- Isso o que? Tá maluca?
- Isso. Já não me basta o que tive que aturar por 14 meses, até ontem.
- E se eu disser que não faço ideia do que você tá falando?
- To começando a achar que isso é um vicio.
- Não to te entendendo... Tem como explicar, por favor?
- Chega de perguntas. Cheguei ao ponto de não querer mais ter resposta. Satisfeita?