A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

sábado, 28 de março de 2015

Foi

Passo mais tempo tentando esquecer do que conseguindo lembrar, e quando quase consigo, eis que apareces.
Sorrio politicamente e esse simples gesto o faz pensar que desejo que fiques.
Ora, eu quero mais é que vá!
Vá para ali, vá para lá, mas não volte para cá!
Vá seguindo reto, ou num caminho torto, imploro apenas que não faça retorno.
Vá sempre à frente, sempre adiante, e vê se tira meu retrato da estante. 
Vai logo e vai na fé! 
Vai na fé e não desiste!
Não desiste e vai com deus.

Pena que deus não existe.

domingo, 22 de março de 2015

O que houve

Ora ora, o que é que há?
Me chamam de querida
E mal posso respirar
Me chamam de amada
E começo a desesperar
Me chamam de meu bem
E mentalmente digo:"eu, hein!"
Dizem que me amam
E me basto com "também".

Ora ora, o que é que há?
Vejo o afeto surgir e começo a me afastar
Vejo o amor dos outros
E não sei o que pensar
Fico desconfiada
De que não sei mesmo amar.

Ora ora, o que é que há?
Triste fato constatei:
Quando lembro que tanto amei,
não dá nem pra acreditar.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sobre um péssimo investimento que pareceu-me boa ideia

O uísque acabou, mas meus medos e lembranças continuavam ocupando o grande e profundo vazio em que minha vida vagarosamente se transformou.
Na carteira, mais fotos 3 x 4 que dinheiro. E com aquela miséria, uma decisão a ser tomada: cachaça barata ou cigarros.
Que tolice, optei pelo segundo. Logo eu, que nem fumante sou...

Confesso ter sentido quase que um minuto inteiro de satisfação - o que parecia-me impossível naquele cenário - ao longo do primeiro cigarro, quando a pressão foi baixando devagar. E, sabe, teria valido a pena usar aquela odiosa droga se não fossem as lembranças...
Quanto mais amarelo o filtro ficava, mais eu lembrava o quanto odiava aquilo e o gosto daquela porcaria passava a fundir-se com o gosto do uísque, fazendo sentir a boca cada vez mais quente e abafada, e ficava impossível não lembrar-te:

Primeiro e obviamente, lembrei do teu gosto.
Acho que todos os que compartilham deste vício tem esse gosto nojento, então perguntei-me indignado "como pude um dia achar adorável (e até delicioso)?!". Mas, a vida sendo sacana como é, me fez aprofundar tal pensamento, e de repente vi-me, mais uma vez, ansiando pelos teus lábios tão gostosamente desgostosos e pelo teu sorriso nem tão branco, apesar de radiante. Desejei teu olhar caído e simultaneamente tão vivo, vivaz, e mortal.
O cheiro dos teus macios cabelos de shampoo misturado com tabaco era só o que eu queria sentir, e não o daquela fumaça cinza, fedorenta e imunda, que, em sua ausência, se resumia apenas a isso: uma fumaça cinza, fedorenta e imunda.

Percebi o devaneio e interrompi antes que fosse pior (mas isto pelo menos livrou-me de mais uns tragos). 
"Vou apagar essa merda", pensei alto.
E ao olhá-lo novamente só consegui desejar que estivesse com a marca do teu batom.

Aí a lágrima, uma única lágrima, desceu.

Foram os seis reais e cinquenta centavos mais mal gastos da minha vida.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pensei em diversas coisas enquanto me embriagava naquela segunda-feira chuvosa. Pensei em mais coisas ainda depois, já embriagada.
E sabe, quando pensei em certas coisas que havia pensado antes de ingerir aquela significativa quantidade de alcool, não pude compreender a maioria delas.

E apenas ria da dúvida.

Inicialmente, fiz um leve esforço para entender uma coisa ou outra, ou procurar ao menos uma gota sequer de coerência ou senso de justiça em alguma delas.
Mas parece-me que o ser humano sempre haverá de ter a péssima mania (ou o dom) de ser inacreditável.

Ainda bem que vomitei.
Só assim para cessar os pensamentos em determinados assuntos.

Restou, então e somente, a dúvida: Foi o alcool ou, mais uma vez, apenas nojo alheio?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A volta

Por que não volta?
Dã-lhe motivos pra ficar?
Ou é problema com o caminho,
e então preferes não retornar?

Retorne!
Dê várias voltas, 
mas peço,
retorne!
Mas antes que anoiteça,
então corre!

Não podes
ou não queres?
Pois a linha é tênue
entre "querer" e "poder".
Qual é mesmo o nome daquilo
que tenho de esquecer?

Ora, então vá!
Contenta-se com andanças,
caminhas sem parar.
Mas se acaso voltasses,
dar-te-ia asas pra voar.

Ou ninho pra repousar.


Querendo, é só chegar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Foi por um tempo tão feliz, que hoje, em sua tristeza, duvida da felicidade alheia.
Não de toda, claro.
Só daquelas declaradas aos quatro cantos, com risadas ensurdecedoramente longas e sorrisos largos dolorosos à mandíbula.
Duvida também da felicidade discreta: a que não é anunciada, mas faz questão de deixar claro que ali não há tristeza. (Que medo é esse de um pouco de melancolia?)
Duvida da felicidade dos que muito têm, e mais ainda da dos que não têm nada.
Duvida da felicidade em companhia, mas duvida também da felicidade abandonada.
Duvida da felicidade dos desencontrados , mas não consegue acreditar num riso sequer de quem diz amar.

É tudo cena. 

Ah, as pessoas e suas pseudo-felicidades patéticas, sendo apenas e exatamente o que deviam ser.

E ela lá.
De costas pro mundo.


Sendo apenas e exatamente nada.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ora bolas, saia já dos sonhos meus!
Antes, parecias contentar-se apenas em fazer parte dos ruins, mas agora aparece-me também numa espécie de boa lembrança noturna (ou antigo desejo).
Não cansas?
Pois cansei-me há tempos!

Que te amei, tenho plena certeza.
Se te amo, eu já não sei.
Ma se te amarei... Ah, isso parece que será eterno!

Nem que seja só em sonhos.