A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Morte súbita

Entrou no quarto, fechou a porta sem nem mesmo virar-se para ela e deslizou rumo ao chão, aos prantos.

Tinha tido um dia normal.

Levantou-se, tomou banho, fez seu desjejum e escovou os dentes. Tentou ler alguma coisa das tantas que precisava ler, mas distraiu-se com a tv. Atrasou-se para o almoço e arrumou-se vagarosamente, mesmo com a falta de tempo. Saiu. Cumpriu suas obrigações diárias. Encontrou alguns amigos, conversou sobre algumas coisas, debateu sobre outras e riu diversas vezes. Fez seu longo caminho para casa, checou a caixa de correspondências, subiu e entrou. Não pôde deixar de sorrir para a recepção calorosa de seu cão e seguiu para seu quarto.

Nada demais aconteceu.

E chorava.
E chorava.

E
chorava.

Pensou, no início, não entender a si mesma.
E logo entendeu.
Culpa dos dias normais.

Bons mesmo são os dias atípicos, aqueles nos quais ele está, nem que seja acenando de longe, nem que seja ignorando sua amada que também o ama.

Engole esse choro, menina! Ninguém disse que o amor seria fácil ou justo.
Só que seria amor.

E é.

sábado, 4 de outubro de 2014

Inevitável amar.
Tolice resistir.

Dia após dia, iludindo-me ao contar aos quatro cantos que ando com o coração vazio, minha parcela sã cai em gargalhadas e já nem tenta alertar-me.

Noite após noite, ao deitar-me sempre entre braços diferentes, sorrir, suspirar e quase declarar-me por impulso, percebo que ainda amo.

Nem que seja só por uma noite.
Nem que seja só naquele minuto.
Nem que seja só satisfação.

Amo muito todo dia, mesmo que não seja amor.


Afinal, quem é que entende desse troço?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Gostaria que aceitasses as minhas sinceras desculpas por aquela noite.
Ora, por quê? Porque não foi justo, só isso. As palavras que lhe disse, os sorrisos que lhe exibi, os afagos que fiz-lhe...
Lamento, mas era pura carência.

Lamento um pouco menos porque sei que também encontrou-me pelo mesmo motivo.
Mas a minha carência era ainda mais banal.

Era carência de carícia. 
Porque de amor eu não careço, meu amor.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sobre a insistente perda de memória emocional

Triste fato: duvidei do meu amor.
Do antigo.
Do mês passado.

Como o amaria eu?
Eu, tão livre e espontânea
eu, tão clara e esclarecedora
eu, iluminada e luminosa
eu, tal qual um astro rei.

Como eu o amaria?
Ele, com algema e sem chave
ele, com discurso e sem palavra
ele, querendo a(s)cender e apagando
ele, mero cometa.

Como nos amaríamos agora?
Enquanto gargalho, pra ele tem trabalho
enquanto ele passa, outro já me amarrota
enquanto escrevo, ele apenas anota.

Que loucura o esquecimento!
Talvez seja desengano. Desencano. Desencanto.

Mas o pensamento se questiona (e se responde): "Como teríamos convivido se não fosse pelo amor?". 


"Deve ter sido" (ouço bem baixinho do fundo de quem fui mês passado).

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ao beija-flor que certo dia invadiu minha casa

Ei, passarinho, que é que fazes aqui?
Pode ir-te embora
Já não é nada sobre ti
E se não é sobre, tambem não é a
Então vai, segue a vida a voar!

Ei, passarinho, por que ainda não foi?
Já não deixo-te água e nem alimento
Nem sustento-te com meu alento
Pelo contrário:
Mais do que livre, deixo-te fadado ao frio do vento.

Ei, passarinho, o que tanto buscas?
Fechei bem os armários
As gavetas 
E os olhos
Para não lembrar-te nem ao ver fuscas.

Vai, passarinho! 
O que tanto fazes aí?
Sente-se mal pelo destino
Ou é saudade de existir?

Ó, pequeno pássaro, 
não te aprisiones mais
Bate firme as tuas asas
E colore a vida como tais!

domingo, 24 de agosto de 2014

Ora, tenha orgulho!

Permita-se me odiar de vez em quando e guarde um pouco de rancor.
Planeje vinganças, continue sendo incapaz de realizá-las, mas ao menos tente me ferir com inverdades.
Sinta nojo desse ser horrível que mostrei ser, e sinta forte a dor que deixei no teu peito.
Não atenda minhas ligações e se for responder as mensagens, demore. 
Seja fria e indiferente publicamente. Me humilha! Diga aos outros o monstro que sou e o quanto te fiz mal. 
Sinta-se enganada, injustiçada e traída, e volte-se contra mim. 
Não venha quando eu lhe chamar, e se eu não o fizer, não me chame.
Afaste-se.
Mude-se.
Exclua-me.
Odeia-me.
Mesmo que só na minha frente.
Mesmo que por orgulho.

Porque ver teu amor me faz sofrer, e com esse sofrimento diário não consigo entender como deixei-a partir.

Como é que você não foi?
Vai!
Busca o que procuras! Torço para que encontres justamente o contrário: o que mereces!

Vai, pequena, sonha!
Não me faça acreditar que também lhe tirei isso, por Deus...

Pequena?

Pequena?



Então deixa que eu vou.

sábado, 16 de agosto de 2014

O tempo passa
As coisas mudam
As pessoas também.
Eu sei.

Vão-se as amarguras.
Vem as boas-novas
Que vão logo logo
E renovam as amarguras.
Eu sei.

Caímos.
Sofremos a queda.
Levantamos.
Caímos de novo algum tempo depois.
Eu sei.

A gente já não é
Mas já fomos.
Eu sei.

Eu sei.
Sei muito.
Sei mais que ninguém.
Mas continuo sabendo o mesmo que antes.

É pra ser.
Pode não ser.
E se for?
Agradeçamos com louvor.
E se não for?
Ah, meu bem, duvidas que é amor?

Se duvidar, confie em mim.
Eu sei.