A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Se eu te ligar mais tarde
Você desculpa a saudade?

Se eu te ligar novamente
Você jura que entende?

E depois de tentar entender
Vai ao menos me atender?

E se eu começar a chorar
Promete que não vai desligar?

Não se preocupe, vai passar
Mas se não, você vem me acalmar?

Vou estar te esperando com a porta que sempre esteve aberta
É só entrar.




quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sobre como as opiniões (e a vida) mudam com o tempo, que passa assustadoramente rápido.

Olhei pra trás e vi aquilo:
Muito osso pra pouca pele
Muita pele pra pouca carne
Muita carne pra pouco nada.

Muito queixo pra pouco rosto
Muito rosto pra pouco corpo
Muito corpo pra pouca alma
Alma nenhuma, nem mesmo penada.

Muita prepotência pra pouca experiência
Muita ingenuidade para tanta malandragem
Muita ginga para tamanha palidez
Muita palidez nas narinas de uma só vez.

Olhei pra trás e lamentei
Tantas lágrimas com aquilo já gastei
Olhei pra trás e pensei:
"Que pena!"
Virei-me para a frente e contemplei:
"Que asas!"

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Plenitude

Ah, essa infeliz felicidade que me atormenta e tira o sono!
Passo horas à fio aqui, assim, com a caneta e o papel, e não consigo um adjetivo sequer que retrate o quão belo é o teu sorriso branco e alinhado ou o brilho dos teus olhos quando as luzes os invadem e dançam livremente por eles.
Como descrever o som da tua risada livre e o toque do teu corpo quente, sempre com a temperatura tão diferente da minha? 
Impossível resumir teu brando abraço e o batimento do teu coração quando se deitas ao meu lado satisfatoriamente e suspiras sorrindo gentilmente?
Faz-me parecer uma tola quando fixa seu olhar contra o meu e me pergunta sobre essas coisas que finjo (sem sucesso) não sentir e insisto em evitar falar. Nessas horaa, quase te odeio, mas ocupo meu tempo repudiando a mim mesma por ver-me completamente envolta no teu sorriso novamente.
Sim, de novo ele. Perdoe a insistência, mas tenho ao menos que tentar contar ao mundo como é bom observá-lo sorrir!
Talvez a única coisa melhor que isso, seja fazê-lo sorrir.

E você aí, jurando que só tenho olhos pros teus belos olhos...
Ria-se da pessoa tola que és por isso! Mas ria daquele jeito, por favor. Não negue ao mundo a graça do teu sorriso sincero, e sempre que distribuí-lo, lembre-se de mim, e então entraremos em plena sintonia.

Porque o teu sorriso não sai da minha cabeça.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Com os olhos aparentemente maiores por conta das alegres lágrimas que estes excretavam, eu o vi.
Ali, parado, voltando o olhar para mim de vez em quando com certa insegurança, porém sempre com um sutil sorriso. Estes olhos cansados, diminuíam, então, por conta do largo e regozijante riso que se abria nos lábios, sem receio ou censura. Os pés buscavam o encontro incansavelmente, mesmo que com a mente relutante quanto a isso.

Desobedeceram e foram.

Estes lábios, já vermelhos de tanto serem mordiscados por evidente nervosismo, ensaiavam inutilmente palavras coerentes ou ao menos coesas, mas se limitavam aos cumprimentos clichês. Aqueles olhos serenos invadiram os meus, e o pensamento superlotado de possibilidades, de repente viu-se branco. Não por falta ou esquecimento de auto-indagações, mas pela estranha despreocupação que inundara a habitual confusão.
Dei-lhe um longo e suave beijo. A cabeça pareceu rodar um pouco, e senti a pressão quase que descer, mas não hesitei em beijar-lhe outra vez, mas agora branda e decididamente.
Minhas mãos percorriam e acariciavam seus firmes braços, e estes percorriam minha cintura e encaminhavam-se para os glúteos. Retirei aquela mão tecnicamente inconveniente e sorri com certa malícia entre os beijos, mordiscando levemente o lado direito do lábio inferior.

Provoquei-o, confesso.
Ele gostou, eu sei.

Enquanto o pescoço se alongava, os olhos fechavam e abriam involuntariamente e a boca tentava sussurrar gemidos o mais baixo possível, sentia a cabeça girar, o gosto amargo às vezes parecia voltar e a pele esfriava, mas isto se via de longe por conta do arrepio pelo corpo.
Entre tantas negações, as poucas permissões enlouqueciam.

Extasiavam.
Ardiam.
Queimavam.
Mas queimavam tanto
Que precisamos acender outro pra dormir.

domingo, 29 de junho de 2014

Impressionante.

De um dia pro outro, tudo começou a me irritar.
Desde o jeito duro de andar, às falhas na barba extensa.
Sua gesticulação exagerada quando algo lhe foge à mente e sua falsa-grande-amizade com os que diz serem colegas começaram a me dar náuseas, e estas aumentam quando lembro do jeito que segura os talheres para comer.
Parece implicância, eu sei, mas como não odiar seu franzir de sobrancelhas quando tenta, pifiamente, convencer de qualquer absurdo e os teus olhos falsamente tristes e chorosos ao confessar a mentira tantas vezes afirmada?
Só de lembrar de como falavas baixo ao meu ouvido sentindo-se irresistível, dou uma boa gargalhada! E rio mais do fato de você achar que me é prazeroso o teu puxão de cabelo tão incerto e até doloroso.
Teus vícios de linguagem ecoam em minha mente, e lembrar dos teus lábios proferindo-os quase me mata de agonia.
Sua dispersão mesmo nos assuntos sérios e sua falta de senso ao abordar tais assunto em momentos de descontração, me fazem sentir raiva, quase tanto quando usa de sua maior característica: a presunção.
Que ódio da sua presunção! Como diria Caetano "Quem lhe deu tanto axé?" Não possuis, meu caro, metade das virtudes das quais se orgulha por aí. E as que possui, tornaram-se medíocres aos meus olhos cansados do teu rosto, dos teus cabelos, do teu cheiro, das tuas roupas, da tua vida, da tua gente e, principalmente, cansados de você.

Mas tenho de lhe agradecer.
Cansastes esses cansados olhos, mas por um motivo diferente.
Estes, que costumavam cansar por choro, cessaram, e hoje apenas pedem distância.
Não por dor.
Nem por raiva.
Por cansaço.
Só cansaço.
Por puro cansaço.

Não falei que tinha cansado?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Conto de fadas moderno

Era uma vez uma cama e duas pessoas.

Um sofá-cama e dois corações, na verdade.

Ela sorria enquanto mexia com as plantas, e ele sorria por simplesmente ter uma linda visão de uma bela mulher sorrindo.
Um trago e uma risada.
Um pouco de tosse às vezes.

Cof cof.

- Bebe água.

E ele a beijava enquanto ignorava a indicação.
Ambos ignoravam a brasa que se apagava por conta do beijo de longa duração e quando iam reacender, riam de si mesmos, por se encontrarem assim por mais uma noite, e então selavam a risada com um pequeno beijo.

- Apaga a luz.
- Você tá mais perto.
- Preguiçoso.

E ela o beijava, mantendo o sorriso em seu rosto e acariciando o dele, que também sorria constantemente.
Alguém cedia.
Luzes apagadas.
Tentavam vez ou outra fazer com que os beijos não fossem maliciosos e se bastassem em beijos, mas sempre falhavam. Desejavam-se muito, era inevitável.
Consumavam o desejo.

- Boa noite.
- Boa noite.

E ele beijava sua testa.
Após alguns minutos de silêncio, surgiam assuntos aleatórios. Às vezes engraçados, às vezes tristes e às vezes absurdos.
"Como ele pode pensar que um dia vai me perder?" Indagava ela.
"Até quando ela estará comigo? Não quero perdê-la!" Temia ele.

Convenciam-se da recíproca de seus sentimentos e dormiam.
Novo dia.
- Bom dia!
- Bom dia!

Se beijavam antes de seguir seus caminhos.
Ele, pro trabalho.
Ela, pra faculdade.
Mesmo em lugares distintos, ouviam dos outros que percebiam a evidente felicidade estampada em seus rostos "Você são muito diferentes... Uma hora isso acaba. São dois mundos distintos, não há como negar".
Concordavam com os olhares tristes.
Era mesmo verdade.

Mas a noite chegava e os olhares dançavam, fazendo-se pertencentes ao mesmo mundo. O mundo deles.
Sem gritos, murmúrios ou opiniões externas.
Sem problemas, sem obstáculos ou diferenças.
Com olhos brilhantes, corpos entrelaçados e risadas soltas.
Com mimos e agrados, com sorvete e até um mascote.

E riam-se por se encontrarem em completo estado de gozo.
- Eu te amo muito. - Dizia ela, com a voz infantil evidenciando timidez por ver-se tão entregue.
- Eu também te amo, minha princesa. - Dizia ele, com os olhos marejados, por sentir a sinceridade que poucas vezes sentiu na vida ao proferir tais palavras.

E era sempre assim.

E viveram felizes até o último dia em que estiveram juntos.

Minha Nani

Para os irmãos mais velhos que adoravam tirar-lhe sarro, era Dan.
Para os mais chegados, Dani.
Na carteira, Daniela.
Pra mim, Nani.

Minha menina Nani, que me fazia sentir vivo.
Aquela menina que me consumia com uma felicidade insone de quem vive seu primeiro amor no que achava ser o terceiro.
Nani, que me enchia os olhos quando vinha com seu vestido florido, seus brincos grandes, seus cabelos soltos e seus largos lábios com um sorriso já não tão branco assim por conta do fumo, mas ainda assim esplendoroso.
Nani, que arrancava-me o chão com suas despedidas eternas e tão passageiras, e que me devolvia o coração intensamente pulsante quando retornava, com aqueles olhos azuis que me enganavam dizendo que sou louco, e que não havia motivo pra tanto desespero.
Nani, que não entendia como poderia amar tanto assim alguém como ela.
Nani, que não fazia o mínimo esforço para entender ou para tornar-se mais amável, pois tinha plena certeza de meu amor incondicional.
Nani, que me fazia ouvir duras verdades e até mentiras convincentes, que me faziam derramar inúmeras lágrimas...
Nani, que tinha faca e afago na mesma mão: Tirava-me a fisionomia triste e cansada com um simples toque e com suas poucas palavras.
Nani, que gostava de usar azul claro, pra combinar com os olhos, e definia como "azul celeste".

Celeste?
Que céu é esse que ousou copiar a cor dos teus olhos?
Que céu é esse que tem essa cor tão sublime e maravilhosa?
Me leva até ele, Nani, eu imploro!
Me leva até sua casa, me leva até esse céu, me leva aonde você quiser, só não me tire da sua vida, por favor!
Me tira desse lugar de céu cinza e de nuvens carregadas.
Me tira daqui! Quero ver o tal azul do céu, pois já duvido até que ele exista...
Pois por aqui, sem você, o tempo é ruim o tempo todo.