A culpada

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Nenhuma literatura está livre de ficção. E nem de verdade.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

minha música

Resolvi escrever uma música.
Uma música sem rima, sem som. Uma música que não precisa de tom.
Não fica boa no grave e nem no agudo. É melhor até ouvir no modo "mudo".
Uma música sem letra, sem sentido. Música que não se escuta com o ouvido.
Ela não fala de amor, não é triste e nem bonita. É uma música que qualquer um se identifica.
Não tem melodia certa, cada um toca como achar melhor. Um bom conselho é deixar cada verso por si só.
Uma música simples. Simples até demais. Poucas estrofes, com indefinidos finais.
Linha reta. Singular. Não tem nada a declarar.
Não tem mensagem alguma a dizer. É só um produto a vender.

terça-feira, 21 de junho de 2011

- Bom, é você quem sabe. A decisão está em suas mãos.
- Mas você não vai dizer nada?
- Não. Você que quis ter essa conversa.
- É... Acho que fiz o certo, já que você não me ama mais.
- Quer que eu diga que ainda amo?
- Não, só se você quiser dizer.
- Então não.
- Não me ama ou não vai dizer que me ama?
- Não vou dizer que te amo.
- Isso quer dizer que não ama?
- É uma das alternativas.
- Por que você não para com esse joguinho e coloca as cartas na mesa? Só assim podemos tomar uma decisão.
- Já disse que é você quem deve tomar a decisão. Eu não.
- Eu te amo. Preciso só saber se você me ama também.
- E isso não basta?
- O que?
- Me amar.
- Não, não basta.
- Então quer dizer que não me ama o suficiente por nós dois?
- Quis dizer que queria não precisar amar por nós dois, mas já que perguntou, amo por nós dois, sim.
- Bom saber.
- Tá vendo? Eu estou sendo sincero o tempo todo e você está ai toda enigmática. Poxa, custa ajudar?
- Ajudar com o que?
- Ajudar com a decisão, oras!
- Perdão, mas se você me fez sair mais cedo do trabalho para termos esta conversa, já devia ter uma opinião formada.
- Mas eu tenho!
- E então?
- Só esperava que você fizesse algo para muda-la...
- Desculpa te decepcionar de novo, querido.
- E ainda vem com essa maldita ironia... É, acho que não sou mais obrigado a suportar isso.
- Pois bem, acabou?
- A conversa? Sim.
- Não, o noivado.
- Ah, os trê anos e quatro meses que passamos juntos? Sim, foram para o espaço.
- Tudo bem. Boa sorte na sua vida, então!
- Na sua também, de verdade. Aliás, posso te dar um abraço?
- Claro, ainda seremos amigos!
- Assim espero!
Abraço dado. Destinos separados. Costas viradas. Novos caminhos a serem traçados.
- Ah, espere!
- O que?
- Você nunca foi obrigado a suportar minha ironia. Suportava por amor. Se ela se tornou insuportavel é porque não havia mais amor suficiente. Agora vá com Deus. Ainda vais achar outros amores, meu amor! E não esquece que eu te amo. Adeus.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sentou-se no chão e começou a chorar sem aparente motivo. A família ficou preocupada, visto que não fazia isso desde a infância. Quando questionavam o motivo, dizia apenas não saber e continuava com o chororô. Nariz escorrendo, rosto avermelhado, olhos inchados e falta de fôlego. Pediu para ficar sozinha.
Quando parou para pensar no real motivo de sua tristeza, viu que na verdade não havia tristeza alguma, só solidão. Não que isto não seja triste, mas pra ela era indiferente. Tanto fazia viver sozinha ou acompanhada. Tantas pessoas passaram por sua vida e saíram que agora não importava mais. Aliás, essa era a única coisa indefinida que havia em sua vida: as pessoas. A aparência era sempre a mesma, o humor era sempre bem definido, os sentimentos eram sempre muito sentidos, mas até mudar de humor, de pensamento ou de sentimento, ficava um vazio enorme em seu interior. Por mais forte que fosse, não conseguia mudar em tão pouco tempo e para não ter meio termo, preferia não sentir, não fazer, não ser.
Mas se isso nunca a tinha incomodado, porque estaria agora? Descobriu o motivo. Riu-se, pegou o telefone e ligou para aquele que é capaz de preencher cada espaço vazio em seu coração sem o mínimo esforço.

E mais uma coisa fez-se extrema em sua vida: A dependência.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Chegava sempre sem avisar e, ainda assim, despertava sempre um sorriso em quem a recebia, por mais importuno que fosse o momento. Era doce, alegre, bondosa. Não guardava mágoas porque nunca teve nenhuma, e só não sentia raiva por falta de capacidade.
Era carinhosa e isso era evidente, apesar de não ter a necessidade de demonstrar carinho todo o tempo. Aliás, era até raro, mas quando vinha, o sorriso deixava de estar só nos lábios, agora todo o corpo lhe ria e transbordava felicidade: as mãos gargalhavam incontrolavelmente, os pés davam risadinhas abafadas e da barriga fugiam todas as borboletas que faziam um som de risada gostosa e escondida.
E ela apenas sentia prazer em causar essas reações. Nunca cobrou nada parecido. Nunca esperou nada parecido. Deve ser porque sabia que não existia nada que se assemelhasse.
Nunca cobrou nada de si mesma para impressionar os demais. Era confiante, sabia que tudo daria certo se apenas desse tudo o que tinha a oferecer.
Não tinha preferencias, era apenas assim, não importava a pessoa. Era doce, muito doce. Mais doce até que o famoso doce-de-batata-doce. Era tão suave quanto a brisa que bate nas pedra do arpoador debaixo de um sol de 40º. Era simples, era sutil. Alias, poderia ser definida apenas com a palavra 'sutil'.

Tão sutil quanto o amor.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Madrugada de quinta-feira. A ansiedade para a viagem do fim de semana causou insônia. Fui para a janela observar a vida alheia. Assim que me apoiei, vi sombras de um casal num apartamento do prédio da frente, numa andar que parecia ser um número abaixo do meu. Fiquei observando as sombras para ver se era realmente o que eu estava achando. Confirmei que era quando vi as cortinas sendo fechadas com muita pressa e barulho. Ri maliciosamente e fui procurar outra coisa para observar.
Passou um tempo e todos da vizinhança pareciam estar dormindo, quando de repende ouço um grito da calçada. Debrucei-me na janela para ver o que era. Era apenas o Sr. André. Morador antigo do bairro. Ficou viúvo há uns três meses e desde então encontra-se frequentemente embreagado. Ninguém se preocupa mais, a não ser seu filho mais velho, que volta e meia tem de busca-lo em bares das redondezas para que sua irmã mais nova não perceba o estado deplorável em que seu pai se encontra. Era um homem de bem, cresci ouvindo dele como eu estava grande... Sua família não merecia esse destino, não. Lamento...
Após todo o barulho provocado por ele, vi uma família tomando café da manhã. Estavam arrumados e pareciam ter pressa. Não era nem 6:30 am e eles já estavam à mesa. Achei estranho. Peguei um binóculo para observar melhor, já que o apartamento era num andar bem mais baixo que o meu. A mãe falava com o pai com expressões furiosas, enquanto o mesmo tomava seu café sem nem esboçar reação. O filho estava com fones nos ouvidos. A mãe arrancou os fones dele e disse algo furiosa. Levantou-se da mesa, pegou sua bolsa e não a vi mais pelo binóculo naquela manhã. Minutos depois que ela se retirou, o pai abraçou seu filho e pareceu derramar algumas lágrimas. Eu não ouvi nada da pequena discussão, não sabia o motivo do estresse, mas aquilo me comoveu. Fiquei ali tão concentrado que parecia assistir a um espetáculo teatral. Quando o filho olhou pro lado, meio que em direção a janela, tirei logo o binóculo e disfarcei. Não sei se ele me viu, mas dei a entender que estava ali por acaso.
Após alguns minutos assim, ouvi um "psiu". Provavelmente alguém me viu com o binóculo. Fique curioso e fui procurar de onde vinha o barulho. Não vi ninguém na janela. Provavelmente alguem estava a me observar e, quando percebeu que ouvi o barulho, se escondeu.
Até hoje me questiono se causei curiosidade, pena, emoção, ou, na pior da hipóteses, nada na pessoa que mandou esse "psiu" misterioso. Se a ultima opção for a certa, preciso urgentemente me tornar interessante para causar alguma reação nas pessoas. Afinal, estamos sendo observados o tempo todo, temos que manter as aparências, não é?

domingo, 15 de maio de 2011

- Que é isso?
- Chocolate.
- Dá um pedaço?
- Tó.
- Você disse que era chocolate...
- E é!
- Não parece.
- Ah, deve estar estranhando porque é meio amargo.
- É meio amargo mesmo... Tem gosto esquisito.
- Não, filho. O nome é chocolate meio amargo.
- Não entendo.
- O que?
- Como o chocolate pode ser amargo.
- Não é amargo. É meio amargo.
- Pra mim, chocolate sempre foi doce. Totalmente doce.
- Mas esse é doce, filho.
- Não é, não! Se é meio amargo, é meio doce. Chocolate tem que ser todo doce.
- Não é bem assim... Veja a mamãe por exemplo: eu te amo, mas as vezes fico irritada com você. Mas nem por isso deixo de amar.
- Hum... Pois quando estou irritado com você eu não te amo, não. Eu te amo muito, mas não toda hora.
- É que você é pequenininho, só tem espaço pra um sentimento de cada vez.
- Mas eu sou maior que o chocolate.
- Mas o chocolate não é gente, João! - disse já se irritando - Pessoas não são como chocolates, usei só um exemplo!
- Eu sei que não são. Até porque se fossem, esse chocolate seria uma pessoa esquisita. Seria metade boa e metade má... Seria má.
- João, o chocolate não é mau.
- Eu sei, ele não é uma pessoa...
O silêncio reinou por um minuto. E quando o assunto parecia ter acabado, o menino retoma:
- Mãe, quem inventou esse chocolate meio amargo ai?
- Não sei, filho, não sei.
- Foi uma criança?
- Provavelmente não.
- Com certeza não. Aposto que foi um adulto. Crianças gostam de tudo explicado: ou é doce ou é amargo. Os adultos que complicam as coisas... Sabia que cansa ter que explicar tudo?
A mãe estava surpresa, não soube o que responder.
- Mas tudo bem, agora você pode me trazer um cholate de criança, por favor?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vestido justo, olhos pintados de preto e a boca mais vermelha que a de um palhaço. Passava perfume enquanto calçava o sapato que faltava para então sair. Estava atrasada e, como de costume, comecei a me atrapalhar. Quando estava prestes a sair, percebi que havia esquecido a bolsa. Voltei ao quarto que nem louca e comecei a procura. Em meio as voltas que dava xingando alguns palavrões e fazendo preces à São Longuinho, ao virar repentinamente notei um espelho que nunca existiu ali. Virei de novo achando estar vendo coisas e me surpreendi: ele relamente estava ali!
Olhei, olhei e olhei mais um pouco. Virei a cabeça como quem questionava como aquilo foi parar ali. Depois de ficar olhando fixamente para meu reflexo por quase um minuto, resolvi voltar a procurar a bolsa. Não consegui. Aquilo realmente prendeu minha atençao.
Continuei a olhar e a tentar entender. Não havia explicação.
Depois de um tempo naquele misterio, peguei-me admirando minha imagem. Estava realmente bela. Ajustei o vestido no corpo, retoquei a maquiagem e quando fui me afastar um pouco para ver o resultado final, o espelho pareceu-me meio embassado. Estranho, há menos de um minuto estava perfeito...
Voltei a procurar a bolsa e finalmente a encontrei. Antes apagar as luzes e fechar a porta, dei mais uma conferida no visual e só pude ver um reflexo escuro e ainda mais embassado. Mas como, Senhor?
Sentei-me na ponta da cama e comecei a chorar descontroladamente. Não era eu, não podia ser. Só conseguia ver coisas ruins naquele reflexo. Parecia que era uma sombra. Uma sombra vazia.
Chorei, me questionei e chorei. E só então percebi... era a consciência!